Sabrina Noivas 59 - To Wed At Christmas

Uma noiva no Natal. Harmony Martin no pensava em se casar, pois o nico homem da cidade que a atraa era David Shepard... Um amor impossvel. Portanto...
Um noivo no Natal. David Shepard cultivava uma paixo a distncia por Harmony Martin. A inimizade entre a famlia de ambos o obrigava a agir assim. Mas isso no o impediria de sonhar com o dia em que a teria nos braos para sempre.
Casamento no Natal? A unio entre um Shepard e uma Martin era considerada impossvel por todos os habitantes de Appleton. Mas o Natal no era uma poca de milagres?

Digitalizao e Correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publio original: 1994
Gnero: Romance contemporneo
Estado da Obra: Corrigida

Srie Under The Mistletoe
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Addison, Jayne	A Precious Gift
	Dec-1993Cassidy, Carla	The Littlest Matchmaker
	Dec-1993Chandler, Lauryn	Romantics Anonymous
	Dec-1993Longford, Lindsay	Annie and the Wise Men
	Dec-1993Tarling, Moyra	Christmas Wishes
	Dec-1993Bagwell, Stella	A Cowboy for Christmas
	Dec-1994Bulock, Lynn	Surprise Package
	Dec-1994Collins, Toni	Miss Scrooge
	Dec-1994Myers, Helen R.	To Wed at Christmas
Sabrina Noivas 59 -
 Casamento No Natal	Dec-1994Varner, Linda	Believing in Miracles
	Dec-1994

 




Convite de Casamento
Voc e sua famlia esto convidados
a participar da cerimnia de
casamento de
Harmony Martin
e
David Shepard,
a realizar-se no dia de Natal,
s onze horas da manh, na Igreja Matriz de Appleton.



CAPITULO I

O fato aconteceu da maneira que sempre ocorrem os assaltos: rpida e inesperadamente.
Num momento, David Shepard caminhava devagar pela rua, observando as pessoas paradas em frente s vitrines bem iluminadas. Conversas animadas, risos e msicas alegres pairavam no ar. No momento seguinte, o som de um grito cortando a noite foi como uma cortina que casse pesadamente sobre aquele clima de festa.
Era a voz dela. Isso David podia reconhecer, com cada fibra de seu corpo, embora o som lhe chegasse alterado pela distncia e o terror.
No havia tempo para pensar. O corpo msculo e gil de David contraiu-se por um instante... Apenas um instante, antes de partir numa corrida louca e perigosa pela calada repleta de transeuntes.
Surpresas, as pessoas voltavam-se para ver o policial deslocando-se como um malabarista naquela verdadeira pista de obstculos.
"Se eu no tivesse parado para cumprimentar o dr. Longfellow, estaria l no momento exato e teria evitado isto, ele pensava, apavorado. "Mas evitado o qu?, perguntou-se, confuso.
A perspectiva dela estar ferida ou morta era intolervel. O mundo no faria sentido sem a presena doce e mgica da mulher que encantava a cidade com sua msica divina.
A desabalada carreira de David levou-o ao centro comercial, onde uma loja de calados femininos anunciava, em cartazes coloridos, a superpromoo que comeara na semana anterior e iria at o natal. Aquela era uma poca festiva e o comrcio apostava tudo nas vendas de fim de ano.
David dobrou a esquina e atravessou a rua, sem se preocupar com os carros que diminuam a marcha no trnsito intenso, devido a curiosidade dos motoristas curiosos diante do incidente inesperado.
Como era de se esperar, um grande nmero de pessoas acorriam ao local. Dvid aproximou-se a passos largos, com o corao aos saltos.
Um homem de idade avanada, usando um sobretudo marrom que o defendia do frio cortante, segurou David pelo brao e anunciou:
	Eram dois. Jogaram a violinista no cho como se ela fosse um boneco de papel e fugiram por aquela rua, levando a sacola de dinheiro.
	Vou precisar de seu depoimento, senhor  disse Dvid, que lutava para no se deixar dominar pela aflio.  Fique aqui, por favor.  E abrindo caminho entre os curiosos, ele por fim chegou ao centro do crculo.
A sra. Gladys Silverman estava ao lado da vtima, Harmony Martin, que muito plida parecia um tanto alheia  agitao em torno. O alvio de ver Harmony em p, aparentemente sem ferimentos, fez com que David reassumisse, de imediato, sua condio de policial em servio.
	Ela est bem?  perguntou  sra. Gladys Silverman, que parecia dominar a situao. A velha senhora sorriu:
	Nada quebrado, policial Shepard, exceto o arco do violino. Mas deixe que eu cuide de Harmony. V atrs dos dois marginais, antes que eles desapaream.
Pegando o rdio que trazia no cinturo, David ganhou a estreita rua lateral. Enquanto fazia contato com o distrito, examinava o interior dos carros estacionados, caminhando com grande rapidez.  Policial David Shepard comunicando assalto em frente ao shopping Revells. A vtima est aparentemente bem. Os dois assaltantes fugiram a p pela rua Salt Lake, em direo ao Parque Independence. Avise a patrulha volante do setor 3-A.
	Descrio dos suspeitos?  perguntou o policial que acabava de receber a mensagem.
	Ainda no tenho.
	Estavam armados?
	Parece que no usaram armas, mas ainda no tenho certeza.
	Volte a nos informar, quando tiver outros dados sobre o caso.
	Positivo... Cmbio e desligo  disse David, guardando o rdio no cinturo e entrando num beco escuro, muito estreito, que servia de entrada de servio para diversas lojas do shopping. Com a mo esquerda segurava uma lanterna que acabava de retirar do bolso. A direita estava solta, pronta para sacar o revlver, se fosse preciso.  Nada  ele constatou, depois de percorrer o beco inteiro, com os olhos atentos.
Retornando sobre os prprios passos, voltou  avenida. Os assaltantes haviam desaparecido, protegidos pela escurido da noite. Agora, s restava voltar ao local do incidente, David pensou, desanimado.
A pequena multido j havia se dispersado. Restavam apenas alguns grupos de pessoas que comentavam o assunto, em voz baixa.
O homem idoso, de sobretudo marrom, que estava sendo interrogado pelo chefe de segurana do shopping Revells, acenou para David ao v-lo aproximar-se.
	O sr. Dalton tem uma descrio interessante dos dois homens  disse o chefe de segurana.  Quer interrog-lo, policial Shepard?
	Sim, Lewis  David respondeu.  Obrigado.
O segurana guardou seu bloco de anotaes no bolso do blazer de tergal, imprprio para o frio que fazia do lado de fora do shopping aquecido. E comentou:
	Parece que teremos bastante trabalho, durante as festas.
	H muitas pessoas chegando a Appleton nesse final de ano  David afirmou, aborrecido.  E, pelo visto, nem todas so bem-intencionadas.
	Infelizmente voc tem razo, policial Shepard  disse o segurana, cruzando os braos sobre o peito para proteger-se do frio.  Bem, com licena. Vou voltar a meu posto e comunicar o incidente  direo do shopping.  Voltando-se para o homem idoso, agradeceu:  Obrigado pelo seu depoimento, sr. Dalton. Se puder repeti-lo para o policial Shepard...
	Eu farei isso, senhor  o homem respondeu, num tom amvel.
David guardou a lanterna no bolso e puxou seu bloco de anotaes.
Vamos l, sr. Dalton. Conte-me tudo o que viu e procure no se esquecer de nenhum detalhe.
Enquanto David interrogava a testemunha, a sra. Gladys Silverman conduzia Harmony Martin ao interior do shopping. No avia abandonado nem por um segundo e agora caminhava ao o dela, segurando-a pelo brao, apoiando-a moral e fisicamente. Aps ouvir por duas vezes seguidas o depoimento do sr. Dalton, uavid dispensou-o e entrou no shopping.
Havia um certo alvoroo entre os clientes e vendedores, irmas na preocupao com a segurana geral e na solidariedade ra com a violinista Harmony Martin, a quem tanto admiravam. 
O gerente da loja, sr. Lawrence Burton, era muito conhecido na cidade de Appleton. Sua simpatia natural e o fato de ter sido campeo por vrios anos das provas de esqui que eram muito populares na regio, haviam feito de Lawrence uma figura pblica, respeitada e querida. Agora, j na meia-idade, o sr. Burton havia abandonado as pistas de esqui, mas a fama continuava a perdurar.
Alto, elegante e solcito, ele agora conduzia Harmony Martin e a sra. Gladys Silverman a seu escritrio particular, situado no andar trreo do shopping.
David alcanou-os e juntou-se a eles, evitando alguns curiosos que tentavam det-lo para comentar o incidente.
	Fiquem  vontade  disse Lawrence Burton, abrindo a porta do escritrio carpetado e indicando-lhes um sof e poltronas estofadas para que se acomodassem. Em seguida foi at o bebedouro que havia junto  janela, encheu um copo com gua e ofereceu-o a Harmony Martin.
	Obrigada  ela. agradeceu, num fio de voz, deixando-se cair sobre o sof e depositando o violino a seu lado, com extrema delicadeza. Mas continuou a segurar o arco quebrado, enquanto sorvia a gua em pequenos goles.
Apontando o instrumento, a sra. Gladys Silverman comentou:
	Lembro-me do dia em que seu av, Ernesto Bonifanti, lhe deu este violino de presente. Ele foi um dos homens mais dignos que Appleton j conheceu. E ficaria muito orgulhoso de ver sua neta tocando to bem. Voc, Harmony, herdou de Ernesto a musicalidade e o bom gnio. De toda a sua famlia,  a que mais se parece com ele...
David sorriu. Era claro que Gladys Silverman s estava tentando animar Harmony, ao evocar aquelas doces lembranas do passado. Mas, infelizmente, s conseguia deix-la ainda mais triste.
O arco quebrado ainda pendia de sua mo e ela o olhava com uma tristeza to profunda, que David comoveu-se.
	Harmony, voc est melhor?  indagou, num tom suave.
	Como  que o senhor sabe o meu nome?  ela retrucou, o rosto para o policial, a quem ainda no havia olhado diretamente. S ento reconheceu David Shepard, com um leve estremecimento. 
 Oh,  voc...!  disse, num sussurro.
David tentou ler, atravs daquelas poucas palavras, os sentimentos da mulher a sua frente. Mas no conseguiu. O modo com que ela o fitava agora era... Frio, ele concluiu. E como poderia ser diferente? Perguntou-se, com uma sensao de angstia.
Afinal, ele era um Shepard e, ela, uma Martin. Os fatos que tinham determinado o dio entre ambas as famlias tinham se passado h muito tempo... Mas permaneciam vvidos na lembrana dos Shepard e Martin, bem como em toda a cidade de Appleton.
	Espero que no esteja ferida  disse David, sabendo que a pergunta era apenas um chavo, um pretexto para iniciar a conversa.
	Estou bem... Dentro do possvel  ela respondeu, com um suspiro.
	Eis a uma boa notcia  David comentou, sabendo que estava se comportando como um tolo. Mas no conseguia evitar... Aqueles olhos castanhos e luminosos causavam-lhe uma emoo incontrolvel. Era quase impossvel no ceder ao impulso de tomar aquela mulher nos braos para proteg-la e confort-la com palavras doces, cheias de um sentimento que ele jamais ousara confessar.
"Controle-se, David Shepard", ele se ordenou, em pensamento, respirando profundamente.
Harmony tornou a levar o copo de gua aos lbios, que tremiam ao sorver o lquido em pequenos goles, at o fim.
Num gesto solcito, David pegou-lhe o copo da mo e depositou-o sobre a mesa de trabalho de Lawrence Burton. Por um instante, ele havia sentido os dedos de Harmony gelados, e mais uma vez teve de se conter para no ceder ao impulso de aquec-los.
	Voc est com a mo gelada, Harmony  disse, com voz branda.  Devia usar luvas de l.  o mais adequado, neste frio.
	Creio que no conseguiria tocar violino de luvas, policial Shepard  ela respondeu.
David sentiu-se corar violentamente e tentou sorrir. Estava fazendo um papel ridculo, pensou, aborrecido. E assumindo um tom de voz profissional, perguntou:
	Voc conseguiu ver os agressores?
Harmony assentiu com um gesto afirmativo de cabea.
	E poderia descrev-los?
	Eram dois e usavam mscaras de esquiar.
	Creio que no so da cidade  Gladys Silverman interveio.
	O que a faz pensar assim?  David indagou.
	Ora...  A velha senhora sorriu.  Nenhum morador de Appleton roubaria as doaes destinadas ao orfanato da cidade... Nem mesmo os mais inescrupulosos marginais seriam capazes disso.
Talvez a sra. Silverman tenha razo  Lawrence Burton opinou, mas havia uma expresso de dvida em seus olhos. Consultando o relgio, acrescentou:  Com licena, senhoras... E policial Shepard. Tenho uma reunio com o departamento de rela-es-pblicas agora. Se precisarem de mim, estarei no ramal 123.
	Certo  David aquiesceu.
	Obrigada por tudo, senhor  disse Harmony, num fio de voz.
	Ora...  Lawrence Burton sorriu.  Eu no fiz nada, srta. Martin.
	O senhor foi gentil e atencioso  Gladys Silverman afirmou.
Lawrence Burton tornou a sorrir e saiu em seguida.
	Sra. Silverman...  disse David, num tom polido  admiro o apoio que deu a Harmony Martin at agora, mas peo-lhe que me deixe a ss com ela por alguns instantes. Preciso conversar com Harmony a ss, para tomar seu depoimento. O tempo est correndo e o pessoal l do distrito espera que eu lhes mande os primeiros dados sobre o caso, para que possam tomar as providncias cabveis. A senhora se importaria de...?  Ele no concluiu a frase, mas o sentido estava muito claro.
	Compreendo  disse Gladys Silverman, voltando-se para Harmony como se lhe pedisse uma opinio sobre o que deveria fazer. Sabia que David estava apenas cumprindo sua funo de policial, no caso. Mas tambm conhecia os fatos que haviam transformado as famlias Shepard e Martin em inimigas. E se Harmony se recusasse a ficar sozinha com David, a velha senhora no hesitaria em apoi-la.
Mas Harmony respondeu-lhe com um aceno de cabea, tran-qilizando-a. Foi o suficiente para Gladys Silverman se decidir:
	Bem, acho que vou tomar um caf l fora. Diga-me, Harmony, no seria melhor eu ligar para sua famlia e...
	Nada disso  Harmony a interrompeu, com veemncia.  Quero contar-lhes tudo pessoalmente.
	Mas algum pode t-la reconhecido, l fora  a velha senhora argumentou.  E se esse algum tiver a ideia de informar sua famlia sobre o assalto? No acha que ser muito pior?
	Ainda assim acho melhor arriscar, Gladys  Harmony replicou.  Obrigada por seu carinho e preocupao.
	Se voc prefere assim...  E a velha senhora saiu, fechando a porta.
O silncio caiu no escritrio, denso e pesado. Harmony Martin e David Shepard agora estavam a ss.
Com o corao descompassado pela emoo, David sentia que seu velho sonho se realizava... Um sonho que acalentava h muito tempo: o de ter, ainda que fosse por uma nica vez, Harmony Martin diante de si, ao alcance de sua voz e de suas mos. E sem que nenhuma pessoa pudesse interferir, sem que nem ela mesma pudesse fugir, fingindo ignor-lo como fizera tantas vezes nos ltimos anos.
Por um instante David recordou-se das muitas ocasies em que encontrara Harmony Martin em Appleton. Ela sempre desviava os olhos ou atravessava a rua. Ou ento dava-lhe as costas, fingindo olhar uma vitrine...
Que inferno David vivera, dentro de sua imaginao, ao pensar que Harmony dedicava a outra pessoa, em especial, seu sorriso tmido e a um s tempo luminoso.
Muitas vezes, quando era escalado para a ronda motorizada, ele conduzia a viatura lentamente pela rua do conservatrio musical de Appleton, esperando o prmio mximo de ver Harmony atravs de uma das largas janelas frontais, dando aulas de violino... E quando conseguia v-la, experimentava uma incrvel felicidade.
Agora ambos estavam ali, frente a frente, num espao isolado do mundo l fora. David sentia-se tomado por uma emoo to forte, que no conseguia encontrar um modo de comear o interrogatrio. A triste realidade do assalto ocorrido h pouco interpunha-se naquele momento que poderia ser totalmente mgico.
"Que pena", David lamentou, em pensamento, fazendo um intenso esforo para assumir uma atitude profissional. Retirando a caderneta de anotaes do bolso superior da jaqueta, ele preparou-se para interrogar Harmony.
Diante daquele gesto, Harmony encolheu-se ainda mais. E David mais uma vez compadeceu-se:
 Sente alguma dor, Harmony? Voc est realmente bem?
Oh, sim  ela respondeu, com um profundo suspiro.  Apenas o meu orgulho sofreu srios danos...  Tentou gracejar, forando um sorriso.
Horrorizado, David viu as lgrimas aflorarem aos olhos da mulher a sua frente... Lgrimas que ameaavam transbordar num pranto desesperado. Se isso acontecesse, ele estaria perdido. Pois no conseguiria manter-se no papel de policial... Tomaria Harmony nos braos e tentaria consol-la com beijos ardentes.
Vamos encontrar seus agressores  ele afirmou, com veemncia. Eu prometo, Harmony...
  Ainda estou surpresa com o fato de voc saber meu nome...  ela comentou, fitando-o no fundo dos olhos. Uma lembrana dolorosa acorreu-lhe  mente: a cena do enterro de seu pai e a comoo geral que a tragdia provocara em toda a Appleton. O espanto diante do inevitvel, a guerra declarada entre as famlias Martin e Shepard... Ela contava, na poca, apenas quatorze anos. Era quase uma criana, mas podia lembrar-se de um momento terrvel, durante o funeral, quando sua famlia inteira reagira com rancor e dio  presena de David Shepard, ento com dezoito anos, que assistia tudo a apenas alguns metros de distncia.
David recordava-se da mesma cena, sob outro ngulo. Lembrava-se da tarde chuvosa, do silncio pesado, as pessoas em longas capas de nilon acompanhando o cortejo fnebre. Os Martin haviam perdido o chefe da famlia e culpavam os Shepard pela tragdia.
David comparecera ao cemitrio, sem saber ao certo por qu. No fundo, acalentava a esperana de conversar com os membros da famlia Martin e explicar-lhes que os Shepard no tinham culpa... Mas desistira, to logo chegara. Os olhares hostis dos Martin deixavam bem claro que ele no teria a menor chance de fazer-se compreender.
Em meio a toda aquela tristeza, a jovem Harmony Martin chamara-lhe a ateno. Ela. era to bonita e parecia muito frgil em seu traje de luto. Caminhava de mos dadas com a me e tinha os olhos inchados de tanto chorar.
	Oh, Deus!  A voz abafada de Harmony trouxe David de volta ao momento presente.  Sou uma Martin e voc  um Shepard. Eu... No deveria estar aqui, a ss, com voc.
	Alm de um Shepard...  disse David, procurando recuperar o autocontrole que ameaava escapar-lhe  sou tambm um policial de servio atendendo um caso de agresso e roubo do qual voc foi vtima.
	...  Harmony sorriu, mas em seus olhos pairava uma nuvem de tristeza.  Esqueci-me disso por um momento.
	Sugiro que deixemos de lado nossos problemas familiares  ele props, num tom mais firme.  Assim, poderemos nos concentrar no problema que ocorreu e resolv-lo da melhor maneira possvel.
	No existe uma possibilidade de voc passar essa tarefa para outro policial?
As palavras de Harmony causaram uma profunda decepo em David, mas ele no demonstrou. Apenas respondeu, no tom mais
natural que conseguiu:
	Sinto muito, mas o problema aconteceu na minha rea de patrulha. Alm disso, fui o primeiro policial a chegar ao local do crime.  Um tanto rspido, acrescentou:  Ns, policiais, temos certas regras a seguir. E no podemos nos dar ao luxo de colocar os problemas pessoais acima dos profissionais, srta. Martin.
O tratamento formal soava agressivo e Harmony baixou os lhos  David sentiu que tinha sido spero demais e quis descular-se Mas conteve-se. Se deixasse por conta do corao, acabaria cometendo uma tolice. Era melhor concentrar-se apenas no aspecto profissional daquele momento. E foi o que fez, usando um tom de voz mais brando:
	Fale-me sobre o incidente, Harmony.
	Eu estava totalmente desprevenida, alm de um pouco cansada devido s duas horas que tinha passado, em p, naquele frio
cortante.  Ela fez uma pausa, afastando os longos cabelos anelados para trs das orelhas, num gesto gracioso. O rosto, de traos perfeitos, estava plido.
	Continue, por favor  David pediu, sentando-se numa poltrona ao lado do sof.
	Eu tocava uma valsa de Strauss e estava muito satisfeita. Sabia que a diretora do orfanato ficaria feliz com as contribuies recebidas. Vrias pessoas, que com certeza conhecem a luta que da sra. Margot Montez para manter o orfanato, colocavam notas de cinco dlares na sacola. E eu calculava, feliz, que poderia en cerrar minha apresentao em menos de vinte minutos.
J esquecido de suas promessas de manter uma postura meramente profissional, David ouvia Harmony com ternura. A voz daquela mulher encantadora soava como uma suave melodia a acariciar-lhe os sentidos...
Ela prosseguiu:
	Engraado  que eu s vezes fechava os olhos, durante a msica, imaginando a xcara de chocolate quente que eu tomaria aqui no shopping, depois do concerto... Depois, entraria no carro e poderia ir para casa, descansar. E quando abria os olhos, deparava com as pessoas que tinham parado para ouvir minha msica, de modo atento e respeitoso.  Harmony interrompeu-se, ao mesmo tempo em que contraa o corpo. E sua voz soou trmula, ao continuar:  De repente percebi que algo destoava no ambiente aconchegante formado pelos espectadores  minha volta. No momento seguinte fui empurrada de forma brutal e, naturalmente, nao consegui pensar em nada... Exceto em proteger meu violino. Depois, foi a queda na calada fria e dura, o arco voando de minha mo... Lembro-me da expresso de espanto no rosto das pessoas, s assaltantes movimentando-se rpidos  altura dos meus olhos, arrancando a sacola da estante onde ficavam as partituras, que se espalhavam pelo cho.  Harmony cobriu o rosto com as mos, jas unhas limpas e rosadas pareciam pequenas jias cintilantes.
	Voc est bem?  A voz de David soava quente, carregada de preocupao e solidariedade.  Por favor, no fique assim.
Harmony estremeceu. Em seguida ergueu o rosto, enxugando uma lgrima furtiva. Com uma expresso que denotava coragem e orgulho, desculpou-se:
	Queira me perdoar. Acho que me descontrolei... Alis, no  a primeira vez que isso acontece, nesta noite.
	Voc tem razes de sobra para se sentir assim, j que acaba de passar por uma experincia terrvel.
	Sim.  Ela ficou pensativa por alguns instantes, antes de dizer:  Mas isso no me d o direito de portar-me como uma criana assustada... Ou de trat-lo de maneira grosseira, pedindo-lhe para entregar o caso a outro policial.
David assentiu em silncio, tomado por uma onda de emoo.
	No posso agir assim com voc  ela continuou.  Afinal, voc no tem culpa pelos acontecimentos trgicos que envolveram nossas famlias, no passado.
	 maravilhoso ouvir isso, Harmony  ele confessou, com um suspiro de alvio.  Ser que pode imaginar o quanto me sinto feliz por saber que voc pensa assim?
Ela fitou-o com uma expresso que era quase ternura... Mas mudou rapidamente de atitude e, assumindo um ar severo, pediu:
	Por favor, vamos terminar logo com isso. Preciso voltar para casa antes que a notcia chegue a minha famlia atravs de outras pessoas. Tenho, tambm, de entrar em contato com a diretora do orfanato.
	Certo  David aquiesceu.  No quero mais tomar o seu tempo e tentarei ser o mais breve possvel.
	Obrigada.
	Bem, tente descrever os agressores.
Harmony fitou-o como se ele tivesse acabado de dizer uma grande tolice. Um sorriso tenso insinuou-se em seus lbios delicados, ao protestar:
	Mas isto  impossvel. J lhe contei como o incidente aconteceu. Tudo o que sei dos agressores  que eram dois vultos, apenas.
O mais, foram as sensaes que descrevi: o empurro, a queda...
	A mente humana  capaz de gravar, em frao de segundos, imagens que aparentemente no foram registradas pelo crebro  David a interrompeu, num tom suave.  Feche os olhos e tente deter os pensamentos, Harmony.
Ela obedeceu, sem muita convico. E David encorajou-a:
	Vamos, confie em mim... Assim... Agora volte ao momento da cena. Voc estava tocando uma valsa de Strauss, no  mesmo?
Sim.
	Havia vrias pessoas assistindo...
Sim.
	Pessoas que olhavam para voc, numa atitude de respeito e carinho. De repente, houve um movimento inesperado...
Houve  ela repetiu, com um tremor.
E o que foi esse movimento? Quem o fez?
	Dois homens, mas estavam separados, distantes um do outro.
Moviam-se de maneira dura, quase agressiva, diferente das outras pessoas que me ouviam.
	E as roupas, Harmony? Como aqueles dois homens estavam vestidos?
	Usavam botas  ela murmurou.  Botas de couro, prprias para esquiar.
Marrons?
Camura...
David anotava rapidamente as informaes.
E que tipo de calas usavam, Harmony?
	Jeans... Muito desbotados. Um deles tinha um cinturo largo, cuja fivela possua a forma de um animal...
	Que tipo de animal?
	Um cavalo... Dourado.
	E os casacos, Harmony? O que aqueles homens usavam para se proteger do vento? 
	Oh, deviam sentir muito frio com aqueles moletons prprios para a meia-estao...
David sorriu. Estava chegando perto de conseguir uma boa descrio dos culpados.
Moletons  ele repetiu.  De que cor?
	Cinza... O outro era vermelho, com punhos e gola azuis.
Os rostos, Harmony... Fale-me dos rostos. Ela abriu os olhos, que brilhavam com um misto de satisfao e surpresa. J no precisava mais ser induzida, pois lembrava-se de tudo com clareza, agora:
Mscaras, David  disse, com voz firme.  Eles usavam mascaras de esquiar. Uma preta e outra cinza.
Os olhos?
Pareciam lanar chispas.
	De que cor eram os olhos?
	Como vou saber?  Harmony impacientou-se.
	Altura?
	Os dois eram mais ou menos do mesmo tamanho... No muito altos. Deviam medir em torno de um metro e setenta.
	E eles eram jovem, ou de meia-idade?
	Ora, David...
Ele insistiu:
	Jovens, meia-idade ou velhos?
	Ambos jovens e muito geis... Se bem que um deles parecia mancar um pouco de uma perna... No sei.
	Qual perna? A direita ou a esquerda?
Aquilo era demais para Harmony. Sua resistncia chegara ao fim. As lgrimas afluam-lhe aos olhos novamente e ela murmurava repetidas vezes:
	No sei... Juro que no sei...
Emocionado, David ofereceu-lhe um leno imaculadamente branco, que Harmony agradeceu num sussurro. Em seguida, ele correu at o telefone e discou o nmero da central de polcia:
	Al? Policial Shepard falando. Estou no shopping Revells. Tenho a descrio dos assaltantes.

CAPITULO II

David terminou de passar as informaes que havia colhido sobre os assaltantes, juntamente com o testemunho do velho sr. Dalton e o da prpria vtima.
Agora vrios agentes especializados se encarregariam de transformar os dados num retrato falado que seria distribudo aos car-ros-patrulha e demais distritos da regio. As cidades vizinhas seriam avisadas do incidente atravs de mensagens que, quela altura, j estavam sendo transmitidas pelo rdio da central. A mquina policial estava em total funcionamento.
David guardou o bloco de anotaes no bolso. Agora poderia desfrutar da presena de Harmony, sem as obrigaes que sua profisso lhe impunha. Poderia ficar algum tempo, ainda que fosse mnimo, na companhia da mulher que amava secretamente h tantos anos.
 Voc acredita que com essas informaes o pessoal da central conseguir alguns resultados?  Harmony indagou, erguendo-se, depois de depositar o arco do violino cuidadosamente no sof.
Nunca se sabe...  David respondeu, pensativo.  Alm do trabalho dos policiais, a sorte conta um bocado, nesses casos. Mas dentro de alguns minutos a corporao inteira estar alerta. E  possvel alcanarmos um resultado imediato. O tempo entre o assalto e o alerta foi muito curto. Agora, com a descrio dos culpados, o circulo comear a se fechar.  Tomando a mo de Harmony entre as suas acrescentou: Vamos conseguir recuperar o dinheiro as doaes e, principalmente, tirar aqueles marginais da rua, antes que faam mal a outras pessoas.
Harmony fitou-o com uma expresso confiante. E, por um momento, o tempo pareceu perder o significado. Ali estavam dois seres, to prximos e ao mesmo tempo to cruelmente separados por uma triste fatalidade.
Ela foi a primeira a reagir:
	Ser que posso ir, agora?
	Receio que no  ele respondeu, ainda retendo-lhe a mo entre as suas.  Uma viatura policial est vindo para c, para lev-la at o distrito.  Ante a expresso de desagrado de Harmony, explicou:
 Querem que voc assine uma queixa-crime. Assim, tero nas mos um documento legal para prender os marginais.
	Mas isto  mesmo necessrio?  Harmony protestou.
	E o procedimento normal, nesses casos, e com toda a razo. Muitos marginais ganham a liberdade depois de um longo trabalho de policiais quev no agindo de acordo com as normas, acabam dando argumentos aos advogados de defesa... Compreende o que quero dizer?
	Sim.  Harmony retirou a mo, num gesto delicado, mas firme. E voltou a sentar-se no sof.
	Voc quer um caf?  ele ofereceu.
	Por favor...
	Vou busc-lo e j volto.  E David saiu.
Sozinha no escritrio, Harmony sentiu-se invadida por tuna srie de emoes, um tanto confusas e contraditrias. Estava muito abalada pelo que havia acontecido, mas no conseguia analisar os sentimentos que David tinha lhe provocado, naquele breve contato.
Que estranha coincidncia o fato de ser ele o policial que o destino escolhera, para atend-la, naquele momento difcil.
David era to solidrio e gentil, que havia conseguido transformar uma situao desagradvel em algo diferente, ela pensou, com um suspiro. Pois David tinha agido de uma forma comovente, como se estivesse pessoalmente envolvido no caso... "Como se de fato se importasse com meu bem-estar, meus sentimentos", concluiu.
Uma sensao de inquietao a fez levantar-se novamente do sof e caminhar at a janela, em busca de ar fresco. Pela vidraa Harmony contemplou a noite l fora, os carros varrendo o asfalto com seus faris amarelados e luzes vermelhas. Pouco tempo havia se passado, desde o momento em que fora agredida. Mas Harmony j no estava to assustada como antes. Ao contrrio: sentia-se tomada por uma estranha calma. E o responsvel por isso era David Shepard.
O que diriam seus familiares ao saber que um Shepard havia cuidado do caso e, mais do que isso, estivera to prximo dela? Harmony se perguntou.
"E o pior  que tive a melhor das impresses sobre esse homem solcito, solidrio e at mesmo carinhoso..." Pensou, sorrindo ao lembrar-se de David tomando-lhe a mo, fitando-a com seus olhos azuis, oferecendo-lhe calor e compreenso.
David Shepard era um homem muito bonito, Harmony concluiu. O rapaz que ela vinha observando  distncia, ao longo de tantos anos, havia se transformado num homem elegante e viril.
O que mais a impressionava era o fato de David manter a naturalidade e a espontaneidade comovente que possua desde menino. A farda no parecia t-lo mudado em nada. Ele a usava como se fosse uma roupa comum, que no o tornava superior a nenhum dos outros trabalhadores da cidade.
	Voc  especial, David Shepard  ela murmurou.
A verdade, ela confessou a si mesma, era que nunca deixara de admirar o filho mais velho da famlia Shepard... Lembrava-se ainda de uma competio de esqui na qual ele se sobressara, com uma performance audaciosa e clssica. Estava muito belo no momento em que recebera o prmio, exibindo um sorriso de satisfao no rosto msculo, de traos perfeitos.
Tantas lembranas... Harmony pensou, tentando afast-las da mente. Afinal, David era um Shepard... E a simples meno desse nome fazia com que a famlia Martin se arrepiasse de dio e repulsa.
Mas houvera um vez, Harmony agora se recordava, em que ela no conseguira evitar de pensar em David por vrios dias seguidos... Fora quando ele voltara  cidade, gozando uma semana de licena da marinha, onde estava engajado. David simplesmente enlouquecera as adolescentes de Appleton, com seu uniforme azul e elegante. E o mais incrvel era que ele continuava o mesmo rapaz de sempre: calmo, educado, ntegro e modesto, mesmo quando assediado por um verdadeiro batalho de garotas. Ele as tratava de modo gentil, sem nenhum toque de malcia. Parecia at surpreso com tanta ateno e deferncias.
	Por que ser que David nunca se casou?  ela pensou, em voz alta.  Parece que nem sequer tem um compromisso firme com algum...
Uma discreta batida na porta a fez interromper-se. Voltando-se, Harmony deparou com a sra. Gladys Silverman que entrava, seguida por David que trazia uma xcara de caf.
	Tudo certo, querida?  Gladys sorria, com sua costumeira amabilidade.  Ei, voc me parece mais animada, agora.
	De fato estou bem melhor, obrigada.
	Seu caf, Harmony.  David ofereceu-lhe a xcara.  Est bem quente.
Harmony sorveu o lquido fumegante em pequenos goles, sentindo-se invadida por uma onda de bem-estar. Depois entregou a xcara para David, que a fitava com admirao e carinho.
	Obrigada  agradeceu, com um sorriso.  Acho que eu precisava mesmo desse caf.  Voltando-se para Gladys Silverman, anunciou:  Consegui lembrar-me de tudo o que houve e descrevi os dois agressores. Foi uma experincia fantstica, eu quase no acreditei...
	E como fez isso, querida?  A velha senhora indagou, surpresa.
	David usou uma espcie de induo hipntica, incrivelmente eficaz. Confesso que fiquei espantada.
David riu, satisfeito. E num tom calmo explicou:
	No se trata, exatamente, de hipnose... Ao menos no foi esta a minha inteno.
	E como voc chamaria aquilo que fez comigo?  Harmony perguntou, com sincero interesse.
	Ora,  muito simples... Creio que desenvolvi esse mtodo atravs da intuio e observao, ao longo dos anos de trabalho.
	Ainda no entendi  Harmony confessou.
	Bem, eu tenho notado que a memria visual  bem mais detalhista e rpida do que normalmente imaginamos. Foi a partir da que criei esse mtodo, que tem ajudado muito em casos em que a pessoa no se lembra de fatos ocorridos em momentos de aflio ou traumatismo.
	E voc ento a faz remeter-se ao momento do crime, buscando nos recantos mais ocultos da memria o que seu consciente no registrou  Harmony concluiu.
	Exato  ele aquiesceu, um tanto surpreso com a inteligncia rpida daquela mulher encantadora e frgil.  Voc conseguiu resumir o mtodo melhor do que eu...
	Interessante  a sra. Gladys Silverman opinou.  Diga-me, David, voc nunca pensou em ensinar esse recurso precioso aos outros policiais da corporao?
Ele riu, divertido, inclinando levemente a cabea para trs. Os lbios vermelhos se entreabriam, revelando dentes perfeitos e regulares.
	J existem dezenas de mtodos empregados por policiais, em todo o mundo. Este, eu guardo para meu prprio uso.
	No conheo os outros  disse Harmony, muito sria.  Mas o seu fez com que eu me sentisse confiante, forte, com coragem de olhar calmamente para um momento de horror e espanto.
	Hum...  Gladys Silverman sorriu.  Isso est me parecendo um elogio.
	Estranho e surpreendente, vindo de uma Martin para um Shepard...  David comentou.
Harmony corou, baixando os olhos. Mas sua voz soou firme, ao retrucar:
	Embora minha famlia seja hostil  sua...  Ela o fitou, com intensidade.  Creio que posso afirmar, sem sombra de dvidas, que voc  um bom homem, David Shepard.
Ele sorriu e foi como se todo o ambiente em torno se iluminasse:
	Voc no imagina o quanto suas palavras me deixam feliz, Harmony Martin.
A sra. Gladys Silverman sorriu, discretamente, consciente da importncia daquele momento. Sabia que entre aqueles dois membros de famlias inimigas corria uma simpatia natural, que prometia transformar-se em algo maior, mais profundo. Sua experincia de vida lhe dizia isso. E a velha senhora mantinha-se em silncio, respeitando aquele momento especial.
Harmony quebrou o encanto, dizendo:
Ser que a viatura j chegou?
Sem esconder a decepo, David respondeu:
Estava a caminho...
Foi ento que a sra. Gladys Silverman resolveu interferir e o fez do modo mais gentil e discreto: saiu, deixando ambos a ss.
Vou aguardar l fora.  Foi tudo o que disse, ao abrir a porta.
Harmony tornou a afastar os cabelos para trs das orelhas, enquanto abotoava o casaco de l, aprontando-se para sair tambm. David aproximou-se. Harmony estava fugindo novamente, ele pensou, com uma sensao de pnico. E sua voz soou um tanto trmula, ao propor:
	Ser que ns... Ser que eu poderia v-la em outra ocasio, Harmony?
Surpresa, ela fitou-o nos olhos por um longo momento. Mas por fim meneou a cabea em sinal de negao:
	Sinto muito, mas acho que no seria uma boa ideia, David.
	Sua famlia no aprovaria  ele concluiu, com um suspiro.
	Sim. Se soubessem que ns dois estivemos a ss, que conversamos nesse tom amigvel, ficariam a princpio perplexos e, depois, furiosos.
As imagens do passado afluram  mente de David. Doze anos haviam transcorrido, mas a cena ainda era muito real... E ele podia ouvir novamente a voz de seu tio dizendo "ele morreu"... Referindo-se ao pai de Harmony. O pesar, a dor, o horror daquele momento ainda mantinha-se vvido na mente de David, que tal como o tio seguira a carreira policial.
	Que culpa tenho eu, Harmony?  ele protestou, afastando aquela lembrana terrvel.  Que culpa tem voc?  acrescentou, com um olhar que era como uma splica.
	Temo que no seja assim to simples, David. Eu sou e sempre serei uma Martin. E no posso magoar meus entes queridos.
	Mas esse dio mantido entre nossas famlias  absurdo!  ele exclamou, indignado.
	A vida s vezes  absurda, David Shepard...  ela contraps, no mesmo tom  tal como a bala disparada por seu tio, que tirou a vida do meu pai.
	Sei de tudo isso, Harmony Martin... Mas no vou me conformar com uma situao para a qual no colaborei. Jamais concordei com a hostilidade entre nossas famlias e tambm no respondi, durante esses anos todos, a nenhuma provocao. Apenas esperei, pacientemente, que a vida me desse a oportunidade que hoje se apresentou.  Com um profundo suspiro, David finalizou:
 Eu no vou desistir de voc. E estou falando srio.
	David, oua...
	No  ele apartou.  Conheo de sobra suas razes para manter-se longe de mim e no preciso ouvi-las de sua boca. Quero apenas que voc responda uma nica pergunta. E, dependendo da resposta, prometo deix-la em paz.
	Pode perguntar, David  ela assentiu, num fio de voz.
	Voc no sente nada por mim?
Harmony estendeu a mo, como se quisesse det-lo. Mas as palavras j haviam sido ditas, a pergunta estava no ar.
A porta se abriu e Gladys Silverman entrou, com um grupo de trs policiais. Um deles, que usava as insgnias de tenente, cumprimentou David com simpatia:
	Al, policial Shepard.  Sem esperar pela resposta, voltou-se para Harmony:  A senhorita deve ir at a central, agora, para assinar a queixa-crime e prestar depoimento.
Harmony aquiesceu com um gesto de cabea e saiu, com Gladys Silverman e dois policiais, sem sequer olhar para David. A ss com o tenente, David desabafou:
	Vocs so sempre inoportunos.
	De que diabos est falando, homem?  o tenente reagiu, surpreso.
	Oh, nada  David suspirou.  Estou falando sozinho, s isso. A propsito, o senhor no vai com eles?
	No. Vim em outra viatura. Fui encarregado do caso e preciso conversar com voc.
- J passei todas as informaes para a central.
	Mesmo assim, eu gostaria de comparar alguns dados.  E o tenente sentou-se  mesa de trabalho do gerente do shopping, sem a menor cerimnia. Depois de confrontar suas anotaes com as de David, pediu para chamar o segurana do shopping. Questionou-o sobre alguns detalhes e por fim deu-se por satisfeito.  Agora vamos at a central, policial Shepard. Voc tem uma relatrio por escrito a fazer e eu preciso dar prosseguimento s aes de rotina.  Aproximando-se da janela, o tenente comentou:  Que frio terrvel para novembro, voc no acha?
David concordou com um gesto de cabea. Conversando amenidades, ambos saram do shopping Revells para a rua, j quase deserta. O vento havia aumentado de intensidade e os transeuntes procuravam abrigo em seus lares ou recintos aquecidos, tais como cinemas, bares e restaurantes.
A luz interna da viatura estacionada em frente ao shopping estava acesa. O motorista, muito concentrado na leitura de revista, s se deu conta da presena de David e do tenente quando estes bateram nos vidros do veculo.
	Podemos ir agora, John  disse o tenente, entrando na viatura e sentando-se no banco traseiro.
	Certo, senhor  o motorista assentiu e voltou-se para David, que acomodava-se a seu lado.  Ol, Shepard.
	Como vai, John?  David cumprimentou-o, com simpatia.  Boa noite para se estar na cama, assistindo  TV, no  mesmo?
	Nem me diga!  O motorista riu.  Estou com os ps gelados, rapaz. Desse jeito, acabarei virando um picol.
A viatura partiu, com as luzes coloridas girando no teto.
O rdio no painel do veculo vez por outra transmitia mensagens da central, sobre o movimento na rea.
O silncio caiu entre aqueles trs homens acostumados  rotina de inumerveis noites, to ou mais frias do que aquela.
J estavam prximos da central, quando algum chamou o nmero da viatura pelo rdio, para anunciar:
	Temos uma boa notcia, tenente Hoffman  disse uma voz masculina, distorcida pela m transmisso.  Dois suspeitos foram capturados na periferia da cidade. Estavam envolvidos numa briga de bar. Os policiais que os revistaram encontraram uma grande quantidade de dinheiro em notas pequenas. No bolso de um deles, que manca de uma perna, havia uma mscara de esquiar. Os dois correspondem  descrio dada pela vtima e pelas testemunhas do assalto ocorrido em frente ao shopping Revells.
	Conseguimos  disse David, entusiasmado.
	Essa foi fcil  o tenente secundou, no mesmo tom.
	Pura sorte  o motorista comentou, bocejando.
	E muita competncia  o tenente afirmou, fitando David com admirao.
	Obrigado, senhor  ele agradeceu, modesto.
O motorista estacionou em frente  central:
	Chegamos. Estou louco para tomar um caf bem quente.
	Boa ideia, John  o tenente aprovou, saltando do veculo.   Eu o acompanho.
Harmony estava na sala de espera do gabinete do capito Brod-wisky, acomodada num velho sof estampado em cores berrantes, que nada tinham a ver com o austero ambiente em torno. De onde teria sado aquele sof?, ela se perguntou. Talvez fosse um capricho do velho policial, que tinha fama de ser excntrico.
Afastando esse pensamento, que lhe pareceu um pouco tolo, Harmony cruzou os braos sobre o peito, numa tentativa de proteger-se do frio. O aquecimento deficiente da sala a estava enregelando.
A sra. Gladys Silverman havia ido at a recepo, a fim de telefonar para os Martin e inform-los do incidente.
Harmony, que a princpio fora contrria  ideia, tinha por fim cedido aos argumentos de Gladys. Afinal, j era tarde. A famlia ficaria preocupada se ela no chegasse na hora habitual. E Harmony no tinha a menor ideia de quanto tempo ainda ficaria ali,  disposio da polcia.
Por todas essas razes, ela havia concordado com a sugesto da velha senhora, depois de recomendar-lhe que transmitisse a notcia com extrema cautela... Isso nem era preciso dizer, pois Gladys Silverman era a delicadeza em pessoa, Harmony pensou, com um sentimento de gratido para com aquela boa amiga.
O tempo se arrastava lentamente. E Harmony remexeu-se no sof, buscando uma posio mais confortvel. Sentia-se exausta. Em sua mente, confusa com os acontecimentos chocantes das ltimas horas, estampou-se a imagem de David Shepard dizendo:
"Que culpa tenho eu... Que culpa tem voc?"
Uma onda de calor a invadiu, causando-lhe uma sensao desconhecida... Uma sensao que era a um s tempo excitante e incmoda.
David jamais poderia supor que ela tambm se sentia atrada por ele. E que j fazia muito tempo que o admirava  distncia...
E, at ento, Harmony tampouco imaginara, nem mesmo em seus sonhos mais loucos, que aquela atrao fosse recproca. A estava uma revelao to maravilhosa quanto assustadora. Por um lado, Harmony sentia-se a mais feliz das mulheres por saber que seus sentimentos eram correspondidos... Mas, por outro, seu corao sensvel se contraa de medo e dor. Pois no podia esquecer que o homem que naquela noite lhe falara de maneira to gentil e carinhosa era um Shepard... E, nos ltimos doze anos, todos os Shepard tinham sido sistematicamente rotulados como inimigos dos Martin.
	Por qu?  ela se perguntou, tomada por um misto de impotncia e revolta.
E mais uma vez recordou-se da tragdia ocorrida h tanto tempo.
Douglas Shepard, tio de David, fora membro da polcia de Appleton... At que numa noite muito fria, perto do Natal, ocorrera a desgraa.
O pai de Harmony, William Martin, possua um grande armazm  moda antiga, que vendia de tudo, desde tecidos at mquinas agrcolas. Mas na primavera e nas festas de fim de ano, William Martin dedicava-se exclusivamente  floricultura anexa ao armazm. Ali passava horas e horas criando arranjos belssimos para a decorao de casas e lojas, usando flores naturais e outros materiais orgnicos que juntava pacientemente durante o ano inteiro. Era um hobby muito lucrativo e William Martin sentia verdadeiro prazer quando elogiado por seus arranjos, to apreciados em toda a Appleton.
As encomendas de fim de ano eram tantas, que William ficava at bem tarde na floricultura, mesmo depois que todos os empregados iam embora. Muitas pessoas sabiam disso... E o assaltante, que resolvera arrombar o estabelecimento, tambm. Mas no fora ele quem matara William Martin. A bala fatal partira da arma do policial Douglas Shepard, que atendendo a um comunicado de suspeita de assalto chegara rpido ao local... E acabara acertando a vtima, no o ladro.
"Como David pode ignorar a comoo de uma famlia que perdeu um ente querido s vsperas de um Natal, numa ao violenta e trgica?", Harmony se perguntou, aflita, apertando os olhos com fora diante daquela lembrana dolorosa.
...E como poderia ela se relacionar com o sobrinho do homem que matara seu pai?
Impossvel  Harmony sentenciou, estremecendo.  Sim plesmente impossvel.  E assustou-se com o som da prpria voz, que lhe pareceu estranha, sufocada pela angstia. Olhou em torno, para ver se mais algum a tinha ouvido.
O policial na sala contgua datilografava velozmente o depoimento que ela prestara pouco antes. E Harmony concluiu que ele tampouco a havia escutado.
A porta do gabinete se abriu e o capito Brodwisky avanou na direo de Harmony, com um sorriso bondoso no rosto envelhecido.
 Tenho boas notcias  ele anunciou.  Capturamos dois suspeitos que correspondem perfeitamente  descrio que a senhorita nos deu. E, o que  ainda melhor, eles no tiveram tempo de gastar o dinheiro das doaes.  Num tom humorado, concluiu:  Parece que nem tudo  m notcia neste distrito...

CAPITULO III

Mais uma hora se passou, antes que Harmony .fosse liberada pelas autoridades policiais.'Ela j no saberia dizer quantos papis havia assinado, nem com quantas pessoas falara no distrito. Agora, tudo o que desejava era voltar para casa, tomar uma boa xcara de chocolate quente ou uma sopa bem saborosa... E dormir. Os msculos de seu corpo doam terrivelmente, devido  tenso das ltimas horas.
Depois de despedir-se do capito Brodwisky e de alguns outros policiais, ela saiu em direo ao saguo do distrito. E viu Rod, o irmo mais velho, caminhando nervosamente de um lado a outro, as mos cruzadas atrs das costas.
Ao v-la, um sorriso de alvio estampou-se em seu rosto viril:
	Maninha querida, voc est bem?
O tratamento carinhoso a fez sorrir. Parecia que o tempo havia retroagido e que ela voltara a ser a criana frgil que Rod sempre fizera questo de proteger.
	Estou bem, mano, como voc pode ver.  E Harmony abriu os braos. Numa das mos segurava o violino e, na outra, o arco danificado.
Rod abraou-a com ternura, beijando-lhe os cabelos longos e anelados. Ele era um belo homem, alto, de cabelos e olhos negros. Trazia no rosto expressivo a linhagem italiana dos avs maternos. Era o chefe da famlia Martin, desde a morte do pai. Aos dezoito anos, Rod assumira a direo do armazm Martin, confiando  me apenas a administrao da casa e a educao dos filhos.
Para Harmony era natural que o irmo se comportasse daquela maneira superprotetora. Sabia que, para Rod, ela seria sempre a menina frgil que precisava de cuidados... Mas s vezes Harmony se irritava com o fato de Rod no perceber que ela agora era uma
mulher de vinte e seis anos, que crescera e desenvolvera uma viso prpria do mundo e da vida.
	Sinto muito por t-lo incomodado  ela disse, desvencilhando-se delicadamente do abrao.  A esta hora voc deveria estar em casa, jantando.
	Ora, nem pense nisso. O importante  que voc est bem, minha criana...  ele sentenciou, fitando-a com infinita ternura. Era assim que tratava, tambm, os irmos caulas, gmeos de quatorze anos.
	Obrigada por se preocupar tanto comigo, mano  Harmony agradeceu, num tom suave.  Voc  maravilhoso.
	No diga bobagens...  ele repreendeu-a, embaraado.
Num impulso, Harmony acariciou o rosto do irmo, a quem compreendia to bem. Rod era mesmo assim... Jamais pensava em si mesmo e sim no bem-estar da famlia, a principal prioridade de sua vida. Aos trinta anos, ainda no havia se casado, embora namorasse Paula Russel h muito tempo... Tanto, que o fato j despertava comentrios na cidade.
Paula, uma das melhores amigas de Harmony, alm de sua colega no conservatrio, havia se conformado em aguardar que os gmeos completassem a maioridade, para realizar o sonho de ter Rod s para si. Compreendia o senso de responsabilidade do homem que amava e, ao menos aparentemente, no parecia sofrer com a longa espera.
	Voc precisa aprender a receber agradecimentos, Rod  Harmony aconselhou, docemente.   o mnimo que ns todos podemos fazer, para demonstrar que reconhecemos sua dedicao.
Ele meneou a cabea, como se acabasse de ouvir uma grande tolice. E em seguida perguntou:
	Voc bateu a cabea na calada, quando caiu?
	No, apenas um cotovelo e os joelhos.  Ela sorriu e sentenciou:  Nada srio, alm de uns hematomas que em breve desaparecero. Fique tranquilo, mano.
	S depois que voc tirar umas radiografias, para termos certeza de que est realmente bem.
	Isso no ser necessrio.
	Radiografias no doem e no fazem mal a ningum.
	Oh, mano, quantas vezes terei de repetir que estou bem?
Ele fitou-a com  uma expresso de dvida, mas por fim aquiesceu:
	Certo... De qualquer forma, amanh  sbado e voc poder descansar o dia todo. Mame e vov cuidaro de voc, at sua total recuperao.
Harmony comeou a rir:
	Voc faz com que eu me sinta um papagaio, repetindo que...
	J entendi  Rod a interrompeu.  Voc est bem e eu sou um irmo bobo e coruja. No h nada de errado. Voc continua sendo a mesma Harmony de sempre, certo?
Harmony pensou, ento, que ela j no era o mesma de sempre... Que algo havia mudado em seu ntimo. Algo que no fora provocado pela queda, mas sim pelo homem que a atendera de maneira to humana e gentil.
Fechando os olhos por um instante, ela sentiu o corao contrair-se de angstia. Estava abalada, sim, por ter descoberto que David se interessava por ela... E sobretudo por saber que jamais poderia falar sobre isso ao irmo mais velho, a quem tanto amava.
	Vamos embora daqui.  Rod interrompeu-lhe os pensamentos.  Este lugar me d arrepios.
Harmony no podia tirar-lhe a razo. A lembrana da tragdia ocorrida h doze anos ainda estava bem vvida em sua mente, como na de Rod. Fora ali, naquele distrito, que ele recebera a notcia da morte do pai. E que perdera o controle, tentando agredir o policial Douglas Shepard.
Mas mesmo sabendo de tudo isso, Harmony afirmou:
	Preciso me despedir de algum. Voltarei num instante.
	Eu vou com voc.
Harmony assentiu com um gesto de cabea e, acompanhada por Rod, caminhou pelo saguo  procura da sra. Gladys Silverman. Avistou-a no incio do corredor que conduzia ao gabinete do capito Brodwisky. A velha senhora estava conversando com um policial e sorriu ao v-la:
	E ento, minha querida? Parece que tudo j foi resolvido.
Retribuindo o sorriso, Harmony disse:
	Acho que j conhece meu irmo, sra. Silverman.
	Apenas de vista  a velha senhora respondeu, fitando Rod com uma expresso amvel:  Como vai?
	Bem, obrigado  Rod cumprimentou-a com sua reserva habitual.
	Rod...  Harmony voltou-se para o irmo  esta  Gladys Silverman, que esteve a meu lado durante todo o tempo, desde o momento do assalto.
	Agradeo seu apoio, em nome de toda a famlia  Rod afir mou, num tom respeitoso.
	Ora...  A velha senhora fez um gesto vago.  Harmony merece todo apoio e considerao deste mundo.
	Ns a deixaremos em casa  disse Harmony.  E o mnimo que podemos fazer...
	No se preocupe com isso, senhorita  o policial interveio.  O capito Brodwisky j me encarregou de levar a sra. Silverman at sua residncia.
	Nesse caso, podemos ir  disse Rod, um tanto brusco. Voltando-se para Harmony, acrescentou:  Voc passou por uma experincia terrvel e precisa descansar.
	Rod...  Harmony repreendeu-o, chocada por suas maneiras rudes.
	Vamos.  Ele tomou-a pelo brao, num gesto paternal e autoritrio.
Harmony acompanhou-o, contrariada, pronta para censur-lo pelo seu comportamento grosseiro. Mas no chegou a dizer nada, pois avistou David saindo de uma sala em cuja porta estava escrito: setor administrativo. Ele parecia cansado, mas seus olhos brilharam ao v-la.
O corao de Harmony pulsou acelerado. Rod soltou-lhe o brao e encarou David com um misto de desdm e ironia:
	Ora, ora... Se no  o policial Shepard! Onde  que voc estava quando minha irm foi assaltada em frente ao shopping Revells... Tomando chocolate com seus amigos, talvez?
	Rod, pare com isso  Harmony o advertiu, entre os dentes.
Para seu alvio, David ignorou a provocao. Era como se no tivesse ouvido aquelas palavras ofensivas, pois continuava a fit-la com intensidade e ternura.
	Voc est bem, Harmony?  indagou, com sua voz grave e pausada.
	Sim, obrigada, David  ela respondeu, sem se importar em disfarar a emoo que a dominava.  Parece que j fiz tudo o que era preciso. O capito disse que terei de voltar aqui para reconhecer os agressores mas, por hoje, estou dispensada.
	Se eu puder ajudar em alguma coisa...
	Ela no necessita de nada nem de ningum, Shepard Rod interveio, num tom agressivo.
	Ele est apenas querendo ser gentil, mano  Harmony afirmou, pressionando levemente o brao de Rod.
	Oh, naturalmente que sim  Rod concordou, num tom sarcstico.  Agora vamos embora daqui, antes que eu acabe come
tendo uma tolice.
Harmony quis resistir, mas calou-se. No queria causar uma confuso. David continuava calmo, sem reagir s provocaes de Rod... Mas todos os homens tinham um limite. E Harmony podia imaginar o que aconteceria, se David perdesse o controle.
	Vamos  Rod insistiu, praticamente arrastando Harmony em direo  porta de sada.
J na rua, Rod encostou-se  parede do distrito, respirando com dificuldade. Parecia prestes a ter um colapso e fitou Harmony com ar de acusao:
	Ouvir voc falando com aquele... Aquele Shepard! Foi uma das piores coisas que j me aconteceram na vida. E ainda por cima voc o tratou com intimidade, chamando-o de... David! Harmony, voc perdeu o juzo?
Ela pensou em contemporizar a situao. Seria talvez mais sensato calar-se e receber a reprimenda. Mas Harmony decidiu reagir. J era mesmo tempo de Rod compreender que ela se transformara numa pessoa adulta.
	Rod, voc agiu mal  disse, num tom severo.  David foi muito gentil e atencioso comigo.
	Se ele estivesse trabalhando, aqueles dois assaltantes no a teriam atacado.
	Ele estava trabalhando e eu gostaria que voc pudesse ver a rapidez e eficincia com que me socorreu.
	Eu no acredito no que estou ouvindo!  Rod exclamou, perplexo.  Minha prpria irm defendendo um Shepard!
	Ora, pare com essa cena dramtica!  Harmony ordenou, surpresa consigo por tamanha ousadia.  David estava cumprindo seu dever e o fez da maneira mais correta e gentil possvel. O que mais voc quer?
	O que eu quero?  Rod encarou-a com uma expresso que era a um s tempo fria e desespero.  Quero que os Shepard desapaream da face da Terra.
Harmony fitou-o, horrorizada:
	Oua bem, mano...  disse, num tom surpreendentemente calmo  sei das razes que voc tem para no gostar da famlia Shepard. Mas, neste exato momento, s posso classificar seu com portamento como... insano.
	E como quer que eu me sinta? Aquele homem representa tudo o que de pior aconteceu em minha vida... Em nossas vidas, alis. Eu o odeio, bem como a toda sua maldita famlia!
Harmony suspirou profundamente:
Pelo amor de Deus, Rod, vamos parar com essa discusso absurda.
Ele meneou a cabea e, caminhando a passos largos, aproximou-se do furgo estacionado em frente ao distrito. Na porta do veculo, o logotipo do Armazm Martin destacava-se, em letras azuis e douradas.
	Entre  Rod ordenou.
E s ento Harmony lembrou-se de que havia deixado seu carro estacionado no ptio do shopping Revells. Como se lhe adivinhasse os pensamentos, Rod anunciou:
	J liguei para o shopping, avisando que amanh irei pegar o seu carro.
	Obrigada  Harmony murmurou, acomodando-se no interior do furgo, com o violino no colo.
Rod sentou-se ao volante e acionou o motor. Um silncio tenso e pesado instalou-se .entre ambos.
O frio era intenso e a neblina estendia-se sobre a cidade, como um vu finssimo de seda. As luzes no interior das casas pareciam traduzir o calor daqueles lares, as famlias reunidas em torno da mesa ou diante de um bom filme na tev... Appleton inteira exalava a tranquilidade de uma cidade interiorana, como tantas da regio.
Rod foi se acalmando durante o trajeto. Respirava agora de maneira mais compassada, readquirindo o autocontrole. Um tanto embaraado, tentou se desculpar pelo que fizera:
	Eu no queria ser rude, mana...
	Vamos esquecer o assunto  Harmony sentenciou, num tom mais brando.  Eu tambm no queria discutir com voc, mano.
Ele assentiu com um suspiro. Mas ainda tinha algo a dizer:
	Oua, Harmony... Voc era muito jovem quando tudo aconteceu. Como irmo mais velho, senti a afronta na pele...
	Mas...  ela tentou intervir, mas Rod no permitiu.
	Espere, deixe-me terminar. No desejo, de maneira alguma, que voc se torne uma pessoa amarga como eu. Voc tem bom corao e uma viso leve sobre o mundo e as pessoas. , de longe, a pessoa mais equilibrada de nossa famlia e todos ns a admiramos por isso. Alis, acho que precisamos disso.
	Obrigada, Rod.
Ignorando o aparte, ele continuou:
	Mas existe limite para tudo. E no permitirei que nenhum Shepard se aproveite de seu bom corao para insinuar-se em nossa famlia.  Rod fez uma pausa.  Somos inimigos, entende?
	E afirmo, sem medo de errar, que estou falando no apenas por mim, mas tambm por mame, vov Irena e nossos irmos caulas.
Harmony sabia que Rod dizia a verdade. Sua av, Irena, transformara a dor pela perda do filho num dio absoluto pelos Shepard. J a me, Olvia Martin, no suportava sequer ouvir o nome da famlia que ela, usando uma palavra italiana, costumava chamar de maledetta. Somente os gmeos, que tinham apenas dois anos na poca da tragdia, haviam escapado desse sentimento corrosivo. Apenas faziam piadas inconsequentes sobre os Shepard e por vezes os provocavam na rua, como faziam com os meninos de turmas rivais.
Harmony era a nica que h muito tempo desejava impor um pouco de bom senso naquele dio ilimitado. E talvez houvesse chegado o momento, ela pensou, armando-se de coragem para dizer:
	Rod, ns moramos numa cidade pequena.  inevitvel que algum de nossa famlia, um dia ou outro, entre em contato com os Shepard. Foi isso que aconteceu comigo, hoje. E agora eu me pergunto: por que no podemos ser corteses com eles... Que mal h nisso?
	Porque odiamos os Shepard, lembra-se?  Rod contraps, voltando a se irritar.  Sobretudo aquele David... Jamais gostei dele.  Num tom categrico, acrescentou:  E no admito que nenhum Shepard se dirija a voc com intimidade, como David fez, agora h pouco. Ele a olhava de um modo... Ultrajante.
Harmony fechou os olhos por um instante. Ento Rod havia percebido o modo intenso com que David a fitara. E se Rod soubesse que ela havia correspondido quele olhar, com toda a fora de seu corao...!
	Chegamos  disse Rod, estacionando em frente  casa onde moravam. Pegando o violino e o arco do colo de Harmony, acrescentou:  Deixe que eu leve isto.
Harmony saltou do veculo, erguendo a gola do casaco. Num gesto automtico, tentou proteger-se ainda mais com o cachecol de l que havia tomado emprestado da me, pela manh. E verificou, chocada, que o havia perdido em algum lugar, naquela noite infernal.
	Que pena  murmurou, mas no disse nada a Rod, para no perturb-lo ainda mais.
A porta da casa se abriu. Olvia Martin e vov Irena correram, aflitas, na direo de Harmony:
	Oh, minha querida...  A me beijou-a, emocionada.
	Minha menina...  disse a av, passando-lhe as mos trmulas pelos cabelos.  Minha bambina.
As lgrimas afloraram aos olhos de Harmony. Ah, como amava aquelas duas mulheres! A me, exceto por uns poucos fios de cabelos brancos, parecia sua irm mais velha. Mida, energtica e muito corajosa, Olvia Martin ainda era uma bela mulher, apesar dos quatro filhos que gerara. A av Irena, matriarca da famlia, era o verdadeiro prottipo da matrona italiana, at mesmo nos rompantes emocionais e nos gestos exagerados com que acompanhava tudo o que dizia.
	Vamos entrar, filha  disse Olvia Martin.  Voc est com as mos geladas.
	Quando soube do assalto meu corao quase parou.  Vov Irena continuava a acariciar a neta.  O que faramos se perdssemos voc, meu amor?  E as lgrimas escorriam-lhe, abundantes, pelo rosto.
Controlando-se, Harmony procurava acalm-las:
	Agora, no precisam se preocupar mais. Eu estou bem, como podem ver.
	Jura?  Olvia Martin fitou-a com ansiedade.
	Claro que juro, mame. Tudo j passou... Foi apenas um susto.
	Escutem, que tal continuarem essa conversa l dentro?  Rod sugeriu, com a voz embargada pela emoo que j no conseguia esconder.
	Sim, vamos...  vov Irena concordou.
Assim que Harmony entrou na sala, circundada pelos mais velhos, os gmeos correram para ela, exibindo um largo sorriso nos rostos excitados. Para eles, tudo fizera parte de um jogo assustador, mas ainda assim divertido. Com a inconsequncia prpria da idade, comearam a bombardear a irm com uma enxurrada de perguntas. Queriam saber de todos os detalhes da aventura:
	Eles eram muito grandes, Harmony?  indagou Christopher.  Iguais aos bandidos dos filmes do 007?
	Usavam adagas ou pistolas?  Brandon quis saber.
Mas antes que Harmony respondesse, vov Irena ps fim ao alarde, tirando o chinelo de couro e empunhando-o como se fosse uma arma:
	J para o quarto, vocs dois, antes que eu lhes esquente os traseiros.
O protesto dos gmeos, que no estavam nem um pouco dispostos a perder a narrativa da aventura, soava a Harmony como uma doce msica. Comovida, ela resolveu interceder:
	Tratem de lavar as mos e depois me encontrem na cozinha. Tomaremos um chocolate quente juntos e eu lhes contarei tudo o que quiserem saber... Que tal?
Vitoriosos, os gmeos subiram correndo as escadas que conduziam aos dormitrios. A noite prometia grandes novidades...
Livre do acesso dos gmeos, Harmony suspirou fundo. A casa, antiga e bem conservada, cheirava a pinho e baunilha. Vov Irena certamente fora pega de surpresa enquanto preparava doces caseiros para o fim de semana, ela concluiu, em pensamento. Como era bom estar ali, no seio da famlia, como um pssaro na proteo do ninho... E Harmony sentiu novamente as lgrimas afluindo aos olhos. Aquela era a sua casa, seu lar, seu porto seguro.
	O que h com voc, filha?  Olvia perguntou, preocupada, ao v-la chorando.
Harmony sorriu, por entre as lgrimas:
	Oh, nada, mame. Estou apenas feliz.
	Ento por que chora, bambina!  vov Irena indagou, docemente.
	Acho que  emoo...  Harmony continuava sorrindo.  A propsito, estou faminta. Quero um prato com sanduches bem caprichados e uma grande xcara de chocolate.
	No acredito no que estou ouvindo!  vov Irena exclamou, satisfeita.  Parece que o susto abriu o apetite de passarinho dessa menina.
As duas mulheres afastaram-se em direo  cozinha. Harmony ia segui-las, quando Rod segurou-lhe o brao:
	Veja l o que vai dizer a elas...
	No tenho nada a esconder  Harmony retrucou.  E gostaria que voc parasse de me olhar como se eu fosse culpada de
alguma coisa.
	Voc entendeu muito bem o que eu disse  Rod insistiu, caminhando a seu lado em direo  cozinha.
Observando a me e a av que se movimentavam ao redor de uma grande mesa, ajeitando talheres e dispondo xcaras de porcelana antiga, Harmony sentiu o corao se apertar. Ela era uma pessoa feliz, naquele lar que h doze anos fora abalado por uma terrvel tragdia. E aquelas duas mulheres, que tanto tinham sofrido a perda do marido e filho, haviam sobrevivido  tragdia, movidas pela conscincia de que era preciso seguir adiante, para criar os filhos e manter a dignidade da famlia.
Harmony compreendia, agora, o que Rod queria dizer, com sua advertncia... Ela simplesmente no poderia causar um desgosto s mulheres que mais amava no mundo.
A imagem de David veio-lhe  mente, com uma nitidez cruel. E Harmony teve vontade de gritar, de protestar contra o destino injusto, contra os caprichos dolorosos da vida. Queria dizer ao mundo inteiro que ela era um ser humano que, alm da famlia, necessitava tambm de um outro tipo de amor... O amor de um homem que a visse como mulher, matriz de uma nova famlia a gerar novos frutos.
"Ser que nunca terei permisso para amar o homem que cativou meu corao?", perguntou-se, contendo as lgrimas que ameaavam inundar-lhe novamente os olhos.
Mas apesar de toda a revolta que se erguia em seu ntimo, Harmony disse a si mesma que teria de desistir de David Shepard.
	Venha se sentar, filha  Olvia convidou, longe de supor-lhe os pensamentos.
Os gmeos entraram na cozinha correndo, fazendo um grande alarido. Acomodaram-se  mesa, com os olhos fixos em Harmony.
	E ento?  Brandon indagou.  Voc vai nos contar, agora?
	Claro que vai, mano  Christopher retrucou.  Ela prometeu, no foi?
	Meninos...  vov Irena os repreendeu.
	Deixe  Harmony interveio.   melhor eu dizer tudo de uma vez, assim eles sossegam.
	Oba!  Brandon exclamou, excitado. - Diga, maninha, como eram os assaltantes?
	No deu para ver direito  ela respondeu, pacientemente. 	Eram dois. Me atiraram no cho e fugiram, levando a sacola com os donativos.
	Tinha muito dinheiro?  Christopher perguntou.
	Acho que havia mais de cem dlares.  E Harmony voltou-se para a av.  Consegui proteger o violino, mas quanto ao arco... No deu para salv-lo. Ele se partiu em dois. Sinto muito, vov... 	acrescentou, sabendo o quanto a velha senhora estimava o instrumento, que pertencera a seu marido durante anos.
	Mas essa bambina tem cada uma...  Vov Irena sorriu. 	Eu estou preocupada  com voc, minha querida. O arco  um bem precioso, mas pode ser consertado.
	Que bom que a senhora pensa assim.
- Continue, mana  Brandon pediu.
	Vocs no acham que j fizeram perguntas demais?  Rod interveio, num tom severo.
	Mas Harmony disse que ia contar tudo  Christopher argumentou.
		E  exatamente isso que farei  ela afirmou, desviando os olhos dos de Rod, que a fitava com apreenso.
Acostumada desde muito jovem a dar aulas, Harmony tinha o dom da comunicao e desenvolvera uma forma especial de passar informaes. Sabia como captar a ateno das pessoas e, principalmente, valorizar certos detalhes.
Foi exatamente isso que fez, narrando o assalto como se falasse de uma histria vivida por outra pessoa, sem se deter nos momentos difceis, dando ao fato a maior leveza possvel.
Os garotos, bem como Olvia, vov Irena e o prprio Rod, a ouviam atentamente. E Harmony falava com desenvoltura... Mas e quando chegasse o momento de contar sobre o policial que a havia atendido?, ela se perguntou, preocupada.
Appleton era uma cidade pequena, onde a maioria das pessoas se conheciam. Seria natural, portanto, que os garotos quisessem saber quem fora o heri da histria...
	Assim...  disse Harmony, chegando ao ponto crucial da narrativa e imprimindo um tom quase neutro  voz  o policial David Shepard me ajudou a rememorar o assalto em todos os detalhes. Consegui fazer uma descrio precisa dos agressores, o que resultou em sua captura, num tempo recorde  finalizou, evitando mais uma vez o olhar de Rod.
	Ainda bem que voc saiu quase ilesa, apenas com alguns hematomas  vov Irena comentou, a voz trmula pelo nervosismo.  Esses Shepard, quando entram em ao, so capazes de fazer mais estragos do que os bandidos.
	 verdade  Olvia concordou, no mesmo tom.  Outro dia, no mercado municipal, a caula dos Shepard provocou um verdadeiro escndalo com o rapaz do caixa. E uma gente sem classe, que nem sequer merece viver numa cidade pacata como a nossa.
Harmony sentiu um profundo desgosto ao ouvir aquelas palavras. As pessoas que mais amava no mundo continuavam a odiar a famlia Shepard por algo que ocorrera h muito tempo. Era no mnimo injusto..., Harmony pensou, lembrando-se de Shawna Shepard, a garota a quem sua me acabava de referir-se. Shawna fora sua aluna de teoria musical, no conservatrio, no ano anterior. E Harmony a admirava por sua inteligncia viva e grande senso de companheirismo que demonstrava com relao aos colegas que encontravam dificuldades na matria. Isso, sem contar que a garota tinha um senso de humor nato, uma alegria contagiante.
Interrompendo os pensamentos, Harmony sentenciou:
	O policial David Shepard foi muito corts e eficiente. Nada tenho a dizer contra a atuao dele, neste caso.  E deu prosseguimento  narrativa:  Bem, depois de prestar-lhe meu depoimento, fui conduzida ao distrito por outros policiais. Fiquei l por um longo tempo,  disposio do capito Brodwisky. Ele me tratou com gentileza e demonstrou um grande senso de profissionalismo.  Harmony voltou-se para Rod e viu que ele j no estava to tenso quanto antes. Ao contrrio, fitava-a quase com gratido, por ela no ter se prolongado demasiadamente ao falar de David She-pard. Erguendo-se, Harmony finalizou num tom humorado:  E assim chegamos ao final de nossa aventura, pessoal. Agora, se vocs me do licena, vou tomar um banho e trocar essas roupas incmodas por um pijama de flanela...
 Faa isso, filha  Olvia aprovou.  Mas antes termine de tomar seu chocolate.
Harmony assentiu, levando a xcara aos lbios. A conversa derivou para outros assuntos e ela pde enfim terminar seu lanche. Em seguida despediu-se de todos e foi para o quarto. Havia contornado um problema difcil... Ao menos momentaneamente. Mas algo lhe dizia que problemas ainda mais srios estavam por vir.

CAPITULO IV

O sbado em Appleton amanheceu azul. No ha-' via nenhuma nuvem no cu lmpido. Mas o sol, distante, pouco aquecia a terra enregelada pela noite de vento forte. O inverno se aproximava.
Harmony acordou com os rudos habituais da casa e levou algum tempo para situar-se no dia que comeava. Uma leve pontada no joelho esquerdo fez com que ela se lembrasse, imediatamente, do assalto ocorrido na noite anterior em frente ao shopping Revells.
Harmony recordou-se de tudo... Mas a memria se deteve diante da imagem de um par de olhos azuis como safiras, que a fitavam com ternura e desejo.
 David...  ela murmurou, com um leve sorriso.
Revivendo a sequncia dos acontecimentos, Harmony demorava-se nas cenas onde o policial mais se aproximara dela, tocando-lhe o corao inexperiente na arte do amor e da seduo. Era intensa a emoo que a dominava, ao recordar-se do contato das mos, das palavras ternas, da splica de David para que se encontrassem em outra ocasio...
Os rudos da casa foram se distanciando lentamente.
Mergulhando naquele espao intermedirio entre o sono e a viglia, Harmony deixou-se embalar pelas imagens escolhidas por sua mente caprichosa. Ali, no havia a premncia da dura realidade... Ali ela podia sonhar.
Quando desceu as escadas, banhada e vestida, o velho relgio de carrilho, na sala, marcava meio-dia e meia.
O almoo j estava servido. Vov Irena, Olvia e os gmeos acomodavam-se ao redor da ampla mesa, forrada com uma toalha branca de linho. Todos pareciam felizes, ignorando propositadamente o assalto ocorrido na noite anterior. Era um fato passado e, com sua sabedoria, vov Irena tinha ordenado aos gmeos que no tocassem mais no assunto.
Assim, durante o caf servido aps o almoo  base de massas caseiras, Harmony sentiu-se  vontade para comunicar  famlia:
	Hoje, s seis da tarde, voltarei a me apresentar na calada do shopping Revells, tal como havia combinado com o conselho municipal e a diretora do orfanato.
Olvia empalideceu, mas cerrou os lbios com firmeza. Vov Irena, depois de refletir por alguns instantes, indagou num tom sereno:
	No acha que  um pouco cedo para retomar o trabalho, bambina?
	No  Harmony respondeu, calmamente.  Estou bem, vov. E esta  a melhor poca do ano para coletar fundos para o orfanato. Tambm no quero que as pessoas supervalorizem a agresso que sofri. Nossa cidade  pacfica e ordeira. O que aconteceu ontem foi uma lamentvel exceo. De mais a mais...  Harmony sorriu  no quero que pensem que fiquei assustada...Ou com medo.
Tanto Olvia quanto Irena compreendiam muito bem o que Harmony queria dizer. Cada uma delas havia enfrentado situaes difceis, e se comportado com bravura. A mais nova mulher da famlia Martin queria estar agora  altura das outras. E essa era a maneira mais clara de faz-lo.
	Voc vai mesmo tocar hoje?  Christopher perguntou.
	Sim, meu bem  Harmony reafirmou.
	Mas o arco do violino est quebrado  disse Brandon.
	Passarei pelo conservatrio antes e tomarei um emprestado.
	Aposto que Rod no vai gostar disso...  Christopher comentou.
	A propsito, onde est ele?  Harmony indagou.
	Foi almoar com Paula  Olvia respondeu.  Os dois ainda no tiveram tempo de se ver nessa semana, pois Rod  muito ocupado.
	Ele ainda vai acabar perdendo a namorada  Brandon comentou.
	 verdade  Christopher secundou.  Ele no liga a mnima para a pobre Paula. Eu, se tivesse uma garota to linda quanto ela...
	Calem a boca  vov Irena ordenou.  Vocs dois so muito crianas para se intrometer nesses assuntos.
	Tudo bem  Brandon assentiu, dando de ombros.  Mas ainda acho que Rod...
	Voc no acha nada, bambino  vov Irena o repreendeu.  E pare de se intrometer na conversa dos adultos.
	Certo  Foi a vez de Christopher intervir.  Ns no entendemos nada dos assuntos de vocs. Mas que Rod vai ficar furioso por Harmony tocar hoje, ah, isso vai...
	Deixe Rod comigo  disse Olvia, sorrindo para a filha com ar compreensivo.  Eu sei como convenc-lo.
. Obrigada, mame. Sabia que vocs entenderiam minha posio.  E Harmony deixou a mesa.  Com licena.
David Shepard fazia sua ronda a p pelo centro comercial de Appleton. Como de costume, trajava o uniforme azul da corporao, com os botes de metal bem polidos, as calas e jaqueta impecveis.
Seus pensamentos invariavelmente voltavam-se para Harmony e os acontecimentos da noite anterior. Uma sensao de esperana o invadia, ao lembrar-se de que Harmony o havia tratado de maneira amvel, mesmo na presena de Rod, que se mostrara desagradvel e agressivo... Como alis era de se esperar.
"Harmony podia ter agido friamente, diante do irmo", David pensava, com um sorriso que era a um s tempo esperana e alegria. "Entretanto, foi atenciosa e delicada comigo... Na verdade, foi encantadora."
Embalado por essas doces lembranas, ele continuava sua ronda, naquele anoitecer frio que anunciava o rigoroso inverno que se aproximava.
A melodia insinuante da sute Quebra-nozes, de Tchaikowisky, chegou aos ouvidos de David assim que ele entrou na avenida principal do centro da cidade.
O instrumento que produzia aquelas belas linhas sonoras era um violino... E isso fez com que o corao de David se acelerasse.
Apressando o ritmo dos passos, ele aproximou-se do cruzamento com a rua Salt Lake, que dava acesso ao shopping Revells. Antes mesmo de dobrar a esquina, j havia reconhecido quem estava executando a msica. Mas relutava em acreditar que Harmony estivesse ali.
Bem, talvez ela houvesse gravado uma fita, que agora rodava no aparelho de som do shopping e soava atravs dos possantes auto-falantes do estabelecimento. Sim... Talvez fosse isso, David pensou, caminhando cada vez mais rpido.
E l estava Harmony, cercada de espectadores que a ouviam atentos, segurando pacotes de compras, protegidos por grossos casacos de l.
A diferena era que Harmony no estava assustada ou plida, como na noite anterior. Ao contrrio, parecia to  vontade, entregue  msica, balanando levemente o corpo, o violino preso sob o queixo, o brao direito erguido e a mo segurando com delicadeza o arco que deslizava sobre as cordas.
 Harmony  ele murmurou, com um largo sorriso, enquanto se aproximava.
Qualquer pessoa que passasse pela experincia traumatizante de um assalto como o da vspera, evitaria sair  rua ao menos por alguns dias, David pensou.
Harmony era mesmo uma mulher surpreendente, ele concluiu, encantado. Por trs daquela aparncia delicada e da beleza um tanto frgil havia uma mulher determinada, que no se acovardava diante das adversidades da vida.
"Justamente o carter que se espera da mulher ideal", ele disse para si, tomado por um misto de orgulho e admirao.
Era tolice sentir-se daquela maneira, j que no tinha nenhum compromisso com Harmony. Mas embora a esperana de torn-la sua mulher fosse mais tnue do que um fio de seda pura, David era obstinado e tinha uma f cega diante da vida, do destino e das pessoas.
Desde os dezoito anos elegera Harmony como o centro dos seus sonhos. Por quantas vezes no imaginara como seria construir uma vida com aquela mulher!
V-la crescer de longe, acompanhar cada feito de sua carreira musical, havia se tornado para David um hobby divertido, um meio de suportar a solido e acalentar as mais doces esperanas.
No exato momento em que David chegava ao crculo de espectadores, Harmony concluiu a msica e resolveu fazer uma pausa. Estava cansada. Precisava de uma bebida quente e do calor que exalava do interior do shopping Revells cada vez que a porta automtica se abria, dando passagem a clientes felizes e apressados.'
Segurando o violino e o arco numa das mos, Harmony pegou a estante com as partituras e a sacola de donativos com a outra. Em seguida caminhou para dentro do shopping.
Aquela no era a hora nem o lugar ideal para uma abordagem e David sabia disso muito bem. Mas no podia perder a oportunidade, de jeito nenhum. Alm do mais ele trazia, no bolso da jaqueta, um precioso pretexto para falar com Harmony...
Armando-se de coragem, sentindo o corao pulsar como o de um colegial prestes a encontrar-se com a primeira namorada, ele transps a porta do Revells.
No tardou a avistar Harmony no balco da lanchonete, tomando uma xcara de chocolate fumegante. A seu lado, estava a
estante com as partituras. No balco, o violino e o arco, ao lado da sacola de donativos.
	Boa noite, Harmony  ele cumprimentou-a, com um sorriso e um olhar intenso.  Vejo que se recuperou rpido do incidente de ontem.
Ela ergueu os olhos e corou, provocando em David uma onda de infinita ternura.
	Ol, David. O que faz por aqui?
	Entrei para cumpriment-la e saber como estava passando...
	No creio que tenha sido uma boa ideia...  Ela olhava em torno, com uma expresso preocupada.
Ao que tudo indicava, as pessoas que transitavam pelo shopping no estavam nem um pouco interessadas no que se passava entre Harmony e David. Cada uma delas parecia estar cuidando de sua prpria vida, procurando ofertas vantajosas que as lojas ofereciam, devido  proximidade das festas de fim de ano. Alm do mais, o clima era festivo e alegre... E Harmony sentiu-se mais relaxada. Tanto, que sorriu para o homem que ocupara-lhe os sonhos e a mente desde a noite anterior.
	Eu precisava falar com voc  David confessou, em voz baixa.
	Estou muito bem, como voc pode ver  ela respondeu, docemente.
	Na verdade, voc me parece mais do que bem... Est simplesmente linda  ele acrescentou, fitando-a no fundo dos olhos.
Harmony usava um casaco diferente naquela noite. Era longo, de um tom azul que combinava perfeitamente com seus longos cabelos anelados e loiros.
Contemplando-lhe o rosto alvo, de traos perfeitos, David comparou-o mentalmente a um lrio que desabrochasse, solitrio, numa jarra azul...
Incapaz de controlar a emoo que o dominava, ele estendeu a mo e tocou os cabelos de Harmony, dizendo:
	Admiro muito sua coragem, mas acho que no deveria ter voltado a tocar, hoje. Talvez fosse mais sensato esperar alguns dias...
	Foi o que minha av disse. Mas no fiz isso por coragem e sim por um senso de responsabilidade. O orfanato de Appleton precisa de donativos para terminar a construo de uma nova ala que, quando ficar pronta, poder abrigar mais trinta crianas. Isso  muito mais importante do que um susto ou os hematomas que, por sinal, nem esto doendo  afirmou, num tom simples, que s serviu para fascinar David ainda mais. Queria tanto ter evitado o que lhe aconteceu, Harmony...
	Ora, David, ningum poderia... Alis, voc foi maravilhoso durante todo o tempo. E sinto muito por meu irmo Rod no ter reconhecido isso.
	No faz mal.
	Ele foi grosseiro com voc.
	Mas eu no me ofendi, em absoluto  David afirmou. Sorrindo, acrescentou:  Na verdade, fiquei muito feliz...
	Com as palavras ofensivas de Rod?  ela indagou, espantada.
	No  ele respondeu, emocionado.  O que me deixou feliz foi a descoberta de que voc no odeia minha famlia, tal como todos os Martin. Isso demonstra o quanto voc  ntegra, correta e despida de preconceitos.  Antes que Harmony retrucasse, ele tirou do bolso da jaqueta o cachecol que ela havia perdido na noite anterior.  Voc o esqueceu no escritrio de Lawrence Burton, ontem. Achei que este seria um timo pretexto para v-la novamente...  confessou, com um sorriso maroto, que mais parecia o de um menino travesso.
Os olhos castanhos de Harmony brilharam de satisfao. Aquele cachecol, embora fosse uma simples pea de l, tinha para ela um grande valor estimativo. Tomando-o nas mos, Harmony j ia agradecer a David, quando notou um broche preso  l.
	O que  isto?  indagou, surpresa.
	Um presente que tomei a liberdade de acrescentar ao cachecol. Servir como prendedor, para que voc no o perca de novo.
O broche, em forma de borboleta, era de ouro. As asas, incrustadas com minsculas pedras preciosas e multicoloridas, pareciam reais.
Harmony logo concluiu que aquilo no era uma simples bijuteria, mas sim uma jia autntica. E apesar de comovida pela beleza da pea e, sobretudo, pelo gesto de David, ela sentiu-se na obrigao de recusar:
	Perdoe-me, mas no posso aceitar.
	Por que no? Trata-se de um simples presente de um ad mirador que, entre outras coisas, pretende ser seu amigo.
	Mas isto no  um simples presente, como voc diz, e sim uma jia preciosa!
	Encontrei-a no Thesouros de Segunda Mo  David explicou, referindo-se  loja da sra. Gladys Silverman, que vendia antiguidades e jias.  Fui visitar sua velha amiga hoje de manh e acabei descobrindo a pea... No  bonita?
	 linda, David, mas...
	A sra. Silverman contou-me que esse broche pertenceu a um colecionador de borboletas vivas, que tinha um jardim cheio de flores que as atraam a cada primavera... Para ele, era um prazer v-las voando, desenhando verdadeiras preciosidades no ar. Ele no precisava captur-las e guard-las num quadro, como fazem os cientistas. Era um romntico e sabia apreciar-lhes a beleza, sem necessidade de mat-las ou torn-las cativas.  Baixando os olhos, David finalizou.  Eu... Achei que seria uma boa ideia... E que voc gostaria do presente.
	Eu adorei  Harmony afirmou, emocionada.
	Ento, aceite-o.  Um pouco mais animado, David acrescentou:  Se estiver preocupada com o preo que paguei pela pea, esquea... A sra. SOverman cedeu-me praticamente de graa, quando soube que era para voc.
	Oh, David...
Aceite  ele insistiu, num tom que era quase uma splica.
Harmony contemplou o cachecol que tinha nas mos... Ali estava o ltimo presente que William Martin dera a Olvia Martin, antes de ser morto estupidamente pela bala disparada por Douglas She-pard... Que vinha a ser tio do homem que agora insistia para que ela aceitasse o broche como prendedor do cachecol! Era irnico, cruel e triste, ela pensou, antes de dizer:
	Eu no saberia como explicar a minha famlia de onde veio esta jia... Entende?
	Diga a verdade  David sugeriu, com um olhar de desafio.
	No posso.
	Harmony...  Ele elevou a voz.  Ns no somos culpados pelo que aconteceu no passado. J lhe disse isso e voc pareceu concordar.
	No se trata de ns dois, David...
	A  que voc se engana  ele discordou, num tom mais calmo.  Trata-se apenas de ns dois. Amo tanto minha famlia quanto voc a sua. Mas temos de seguir nosso destino e lutar para sermos felizes. Ou acha que devo me conformar em viver frustrado pelo resto dos meus dias, abrindo mo de voc?
	Fale baixo, David  ela o censurou, olhando ao redor com uma expresso apreensiva.  Parece que voc no quer entender que meu pai est morto e que foi um Shepard que o matou.
	Existe uma diferena muito grande entre assassinato e acidente  David argumentou.  O que ocorreu entre seu pai e meu tio foi um lamentvel acidente e ningum conseguiu provar o contrrio.
	Mas meu pai morreu e seu tio continua vivo  Harmony retrucou, rspida.
	Vivo e removido para Chicago, contra sua vontade. No quero fazer comparaes, Harmony, pois isso seria absurdo. Mas meu tio Douglas tambm sofreu uma grande reviravolta em sua vida. Teve de abandonar a cidade que amava, os amigos e a famlia, para viver numa terra distante, apesar de sua inocncia ter sido provada no tribunal. Que droga!, ele s estava tentando cumprir seu dever e...  David interrompeu-se, ao ver a palidez de Harmony. Arrependido por ter falado de maneira to dura, procurou desculpar-se:  Oh, por favor, queira me perdoar. Queria tanto
evitar esse assunto doloroso, entre ns... Por favor, me ajude a lutar contra o passado. Todos ns j sofremos muito, por um longo tempo, pelo que aconteceu.
	E exatamente por isso que no posso causar ainda mais desgosto a minha famlia. Imagine como eles se sentiriam se soubessem que...  Harmony no concluiu a frase. Com um gesto trmulo, desprendeu o broche do cachecol e entregou-o a David.
 Sinto muito, mas no posso aceitar.
	Sente-se melhor assim, Harmony?  ele indagou, recusando-se a pegar a pea. Ento viu a angstia que se estampava naqueles olhos castanhos que tanto amava... E cedeu. Tomando o broche nas mos, olhou-o por um instante antes de coloc-lo no bolso.  Est bem. Vou guard-lo para voc. Acho que me precipitei... Desculpe-me.  Curvando levemente a cabea, num triste cumprimento, David afastou-se em direo  sada.
Harmony ainda esboou um gesto para det-lo, mas desistiu. No tinha nada a dizer.
	Harmony... Ei, Harmony...
A voz parecia vir de longe e Harmony levou alguns instantes para compreender onde estava e quem a chamava.
	Oh,  voc, Paula?  disse, por fim.  Pensei que no houvesse mais ningum por aqui.
Ambas estavam no patamar reservado ao coro da igreja. Harmony, sentada diante do rgo de tubos. E, Paula, em p, a seu lado, sorrindo com ar zombeteiro.
	Ora, ela fala!  exclamou, num tom brincalho. E sacudindo a mo em frente aos olhos de Harmony, gracejou:  Agora me diga: quantos dedos voc v?
Afastando a mo da amiga, Harmony protestou:
	Ora, no me perturbe. Est chegando de onde, Paula?
	De Marte. E devo estar meio invisvel, j que voc nem se deu conta de minha presena.  Paula continuava a brincar.  E voc, amiga, em que planeta estava?
	J chega, Paula  Harmony repreendeu-a, num tom carinhoso.
Assumindo uma expresso mais sria, Paula indagou:
	yoc est bem?
	E claro que sim.
Mas a verdade era que Harmony ainda sentia-se presa da noite anterior, quando David lhe devolvera o cachecol e tentara lhe dar um presente... Que ela no pudera aceitar.
Afastando a lembrana daquele encontro doloroso, Harmony explicou:
	No dormi muito bem, na noite passada. Alm disso tive de corrigir algumas provas do conservatrio, o que me deixou muito cansada. E agora preciso acabar a adaptao da pea de Bach para o coral.
	 melhor voc trabalhar mais devagar, seno acabar precisando de uma licena mdica.
Harmony sorriu para Paula Russel, sua melhor amiga e namorada de Rod. Paula era loira, do tipo mignon, extremamente energtica e ativa. Estimava Harmony como a uma irm.
	Voc precisa se cuidar, Harmony Martin, para no sofrer um esgotamento por excesso de trabalho.
	Voc parece minha me, quando fala assim.
	As mes quase sempre tm razo, quando se trata da sade dos filhos  Paula retrucou.  Por que no deixa essa adaptao da pea de Bach para outro dia?
	O padre Bernard est contando cm esse arranjo para hoje  noite. E no quero decepcion-lo.
	Quer dizer que voc pretende terminar o arranjo, ensaiar o coral e cantar na missa, antes de ir para casa descansar?
	E tenho outra sada?
	Tem, sua cabea-dura. Levante-se deste banco, v at a sacristia, ligue para o padre Bernard, explique-lhe que est se sentindo mal e que no poder...
Harmony tapou a boca da amiga com a mo, num gesto cmico. Paula fingiu-se furiosa, mas compreendia muito bem qual era a nica soluo para o caso: sentar-se ao lado de Harmony e ajud-la a concluir o trabalho.
	Chegue para l e me d um desses lpis vermelhos. O que fao com a linha dos tenores? Transponho direto, ou voc pretende corrigir a composio de Bach, tambm?
	Obrigada, amiga.  Harmony sorriu, cansada.  Anote s a parte dos baixos, at chegar na linha do F... Assim.  E mostrou como se fazia.
Ambas debruaram-se sobre o trabalho, muito concentradas e eficientes. Harmony fazia soar os velhos tubos do rgo, quando tinha dvidas sobre alguma passagem da msica. Em seguida retomava a escrita musical.
Cerca de quarenta minutos depois a partitura estava pronta... Ao menos era isso que Paula pensava, ao exclamar:
	Ufa! Terminamos. Agora podemos tomar um ch e conversar um pouco, voc no acha?
	S depois que eu tirar xerox da partitura.
	Meu Deus! E voc pretende usar aquela geringona do tempo dos dinossauros, para fazer isso?  Paula referia-se  velha mquina xerox que havia na sacristia.
	Sim.
	L vamos ns. para mais meia hora de sofrimento  Paula protestou.  Sabe de uma coisa, Harmony? Acho que voc est tentando ganhar um lugar de destaque no cu... S pode ser isso.
	Deixe de resmungar e vamos ao trabalho. Daqui a pouco os coralistas comearo a chegar.
Ambas caminharam em direo  sacristia. Pouco depois, estavam empenhadas em xerocopiar a partitura.
	Eu soube do que aconteceu com voc, em frente ao shopping Revells  Paula comentou.  Quer falar sobre isso?
	 a ltima coisa que desejo fazer, neste momento.
	Era o que eu imaginava...  Paula suspirou, com ar exageradamente dramtico.  As velhas amigas so sempre as ltimas a saber...
Harmony sorriu:
	Voc  impagvel, Paula Russel.
	Veja s quem fala!
Ambas riram e deram seguimento ao trabalho.

CAPITULO V

Denise Green, a melhor organista de Appleton, estacionou o carro no ptio da igreja e caminhou a passos largos para a sacristia.
Estava um pouco atrasada e muito preocupada com a missa que se realizaria naquela noite. Tratava-se de uma cerimnia especial, que o padre Bernard fazia questo de realizar todos os anos, em homenagem aos fundadores da cidade. Para essa cerimnia, ficara combinado que Harmony Martin adaptaria uma pea do compositor Joham Sebastian Bach para o coral. E Denise Green receava que a competente violinista no conseguisse faz-lo.
Como a maioria das pessoas que pertenciam ao crculo musical da cidade, Denise ficara sabendo do assalto em frente ao shopping Revells. E podia imaginar como Harmony estaria se sentindo...
Por isso surpreendeu-se ao encontrar Harmony e Paula numerando as cpias da partitura que saam da velha mquina xerox, utilizada para os servios internos da parquia.
	Que maravilha!  Denise exclamou, aproximando-se.  Posso ver?
	Claro  disse Harmony, sem interromper o que fazia.  E se quiser colaborar, h tarefas para todos.
A organista tomou uma cpia nas mos.
	Que belo trabalho... Profissional, como sempre. Voc  o mximo, Harmony Martin. A propsito, fiquei sabendo do que aconteceu sexta-feira, no Revells. Sinto muito por voc, querida.
	No foi to grave assim.  Harmony sorriu.  A polcia conseguiu recuperar o dinheiro e prender os assaltantes na mesma noite.
	Como naqueles filmes de ao da tev  Denise gracejou.
	No seja infantil, garota  Paula repreendeu-a. Em seguida pediu:  Veja se acha mais grampos ali na escrivaninha. O grampeador est vazio.
	Certo... Vocs  quem mandam  Denise aquiesceu, j abrindo as gavetas da escrivaninha. Enquanto procurava pelos grampos, perguntou:  Voc no vai me contar como foi, Harmony?
	Se est se referindo ao assalto, esquea  Paula interveio.
	Temos de concluir este trabalho e, se quiser nos ajudar,  bom comear logo.
	Entendi a mensagem  Denise afirmou, com ar brincalho. 	No est mais aqui quem falou.
	Otimo  Paula assentiu, num tom srio.
Harmony fitou a amiga com gratido. Alm de ter dominado sua prpria curiosidade sobre o fato, Paula agora a protegia contra a indiscrio alheia.
	Aqui est  disse Denise, entregando uma caixa de grampos a Harmony. E no resistiu  tentao de comentar:  Disseram que seu violino ficou danificado...
	Apenas o arco se partiu ao meio. J levei-o para Christian Verdaguer. Ele o consertar para mim  Harmony explicou, com um suspiro.
Sentia-se indisposta e sabia que a chegada dos coralistas traria uma chuva de perguntas chatas e indiscretas, que ela teria de responder com pacincia.
" compreensvel que as pessoas ajam dessa maneira", pensou. "Afinal, a curiosidade faz parte do ser humano. E, alm do mais, no  todo dia que ocorre um assalto desse tipo em Appleton."
	Terminei  ela anunciou, cerca de quinze minutos depois. 	E voc, Paula?
	S faltam mais duas cpias. Dal poderemos tomar um ch bem quentinho e conversar um pouco.
	Ainda no, Paula  Harmony discordou. Voltando-se para Denise, anunciou:  Gostaria de ensaiar as linhas das vozes. Voc poderia tocar o acompanhamento no rgo e cantar a parte dos sopranos?
	Claro.
	E voc faria a parte dos contraltos, Paula?
	Sim.
	Ento, vamos.
A noite caa, quando os integrantes do coral chegaram  igreja. O ensaio comeou imediatamente.
Alguns retardatrios iam se acomodando, em silncio, em meio aos colegas, compondo assim os quatro naipes vocais que formavam o coro: sopranos, contraltos, tenores e baixos.
A msica soava de maneira quase mgica, na acstica perfeita da igreja. Como os coralistas j conheciam a pea, no tinham dificuldades em execut-la. Preocupavam-se apenas com as novidades do arranjo criado por Harmony, que provocou vrios elogios.
Tudo corria muito bem e Harmony sentia-se bastante satisfeita. Estava exausta, mas o trabalho valera a pena.
Aps uma hora e meia de ensaio, sem intervalo, todos estavam prontos e seguros para a apresentao.
	Padre Bernard vai dar pulos de alegria quando ouvir isto  disse uma das coralistas.
	Imagine o velho padre pulando  um rapaz gracejou.
	Vamos parar de brincadeiras, pessoal  disse Harmony. O tempo corre e no queremos atrasar a missa, certo?
Era hora de trocarem as roupas comuns pelo uniforme do coral: tnica branca com detalhes em azul para as mulheres, camisa e calas brancas com gravata de lao azul para os homens. E, assim, todos dirigiram-se ao vestirio.
Harmony sentia-se aliviada por no ter sido bombardeada pelas perguntas previsveis. Tudo correra de modo to rpido e dinmico, que ningum tivera tempo de question-la sobre o assalto.
Em meio a brincadeiras e conversas animadas, os coralistas se aprontaram para a apresentao. Cerca de meia hora depois, foram avisados por uma senhora da congregao de que a igreja seria aberta ao pblico em quinze minutos.
Conscientes da importncia da ocasio, os coralistas fizeram silncio e dirigiram-se, em pequenos grupos, ao local que deveriam ocupar, ao lado do altar. Levavam na mo a pasta com as partituras das msicas a serem cantadas naquela noite. Entre elas, o belo arranjo sobre a pea de Bach... Que teria um destaque especial.
Harmony ocupava um lugar na primeira fila de coralistas, entre as sopranos. De onde estava, pde avistar seus familiares chegando  igreja. Vov Irena, usando um vestido preto de corte sbrio, com seu porte majestoso e elegante. Olvia, de tailleur bege, os cabelos presos num coque solto sobre a nuca, irradiando bondade e simpatia. Os gmeos, usando calas e suteres azuis, lembravam as antigas pinturas de anjos barrocos com seus cabelos loiros e encaracolados. E finalmente Rod, usando terno cinza e gravata prola, muito belo e austero, como sempre.
Dezenas de outros conhecidos de Harmony iam ocupando seus lugares. E logo a igreja estava lotada. Um burburinho corria entre as pessoas, que se cumprimentavam ou faziam comentrios em voz baixa sobre o evento que estava para comear.
Quando o padre Bernard entrou, todos ficaram em silncio. A um sinal dele, as vozes se ergueram num cntico a capella, ou seja: sem acompanhamento de instrumentos. As linhas sonoras, entoadas com perfeio, pareciam varrer os ltimos vestgios das preocupaes e ansiedades que cada pessoa presente carregava dentro de si. O clima era de total harmonia.
Harmony cantava com fervor, tomada por uma emoo que s a msica podia causar. Mas, de repente, sentiu que o cho lhe fugia sob os ps... E que as vozes soavam ao longe, muito ao longe.
"Oh, no", ela pensou, sobressaltada. "Eu no posso sofrer um desmaio justamente agora". E, respirando compassadamente, foi aos poucos vencendo a sensao de vertigem. "Estou bem", disse para si. "Apenas um pouco cansada, s isso." E voltou a concentrar-se na msica.
Foi nesse momento que seus olhos recaram sobre um homem parado junto  porta de entrada da igreja... Um homem que usava o uniforme azul da corporao policial de Appleton e que segurava o quepe contra o peito numa postura respeitosa, quase solene.
A primeira msica da noite chegou ao fim. Os coralistas ficaram em silncio, tal como os fiis que agora ouviam, atentos, as palavras do padre Bernard.
A igreja estava lotada. E Harmony pensou que seria difcil, para o policial, encontrar um lugar para sentar-se. Mesmo assim ele caminhava, lentamente, em direo ao altar.
Sentindo-se empalidecer, ela reconheceu David Shepard.
O primeiro pensamento que lhe ocorreu foi com relao  famlia. Como os Martin reagiriam ao ver David ali? Perguntou-se, estremecendo, voltando-se na direo da me, da av e dos irmos. Mas nenhum deles havia se dado conta da chegada do homem a quem consideravam um inimigo mortal. Todos pareciam muito serenos, embalados docemente pelas sbias palavras do padre Bernard.
Foi ento que David parou, ao descobrir um lugar vago logo atrs de Rod Martin, que no tomou conhecimento de sua presena... Nem mesmo quando ele se acomodou no banco, entre duas mulheres de meia-idade.
A situao nada teria de anormal, se no fosse pelos ltimos acontecimentos, Harmony pensou. Afinal, o que tinha de mais um policial fardado assistir  missa? Nada...
Mas Harmony sabia que sua famlia tomaria a presena de David naquela ocasio como uma provocao deliberada.
 Voc  louco, David Shepard  ela murmurou.
Paula, que estava a seu lado, comentou baixinho:
	Viu s quem acaba de chegar?
	Psiu, Paula  Harmony censurou-a, num fio de voz.
O rgo de tubos soou, imponente, fazendo vibrar o interior da igreja com a msica magistral de Bach. As vozes ergueram-se em seguida, entoando um cntico de louvor  vida e a Deus. Tratava-se da pea que Harmony havia arranjado, ainda naquela tarde. E soava como se cantada por anjos celestiais.
A emoo tomou conta de todos os presentes, unindo os coralistas, os fiis e o padre Bernard numa onda de f e benevolncia, que parecia invocar a possibilidade de uma convivncia pacfica e perfeita entre os homens.
Harmony sentiu-se tomada por um sentimento de amargura e ironia, ao constatar que o homem que amava jamais seria aceito por sua famlia... Devido a uma tragdia ocorrida h doze anos, da qual nem ela nem ele tinham sido culpados. Como era estranho cantar uma msica que falava de harmonia entre os seres humanos e ao mesmo tempo saber que o dio dos Martin pelos Shepard seria eterno.
Quando a msica chegou ao fim, o acmulo das emoes e tenso dos ltimos dias desabou sobre Harmony. De novo, ela sentiu que o cho lhe fugia sob os ps... Mas agora no tinha foras para vencer aquela sensao. Apoiando-se em Paula, disse, baixinho:
	Eu no estou bem...
Num movimento rpido e preciso, Paula apoiou-a pela cintura. Passando por entre os coralistas, conduziu-a em direo  sacristia. Como se por um acordo tcito, os coralistas ajeitaram-se de modo a cobrir as vagas deixadas por ambas.
Quem estivesse longe do altar, e no muito atento, teria percebido apenas um leve movimento entre os integrantes do coro. Mas esse no era o caso dos Martin, e muito menos de David, que a custo conseguiu controlar o impulso de correr para acudir a mulher que tanto amava.
Erguendo-se, Rod caminhou rpida e discretamente at a sacristia.
O padre Bernard, que naquele momento comeava a falar, de-teve-se por um instante e olhou fixamente para vov Irena, como se esperasse que tambm ela se levantasse e sasse. Mas a velha senhora devolveu-lhe um olhar sereno e, com um aceno tranquilo, estimulou-o a prosseguir a missa.
Sentada numa poltrona antiga, a um canto da sacristia, Harmony respirava compassadamente, com a cabea curvada, quase tocando as pernas. A seu lado, acariciando-lhe os cabelos, Paula comandava:
Isso... Respire fundo, amiga. Agora tome um pouco de gua. 	E estendeu-lhe um copo.
Harmony obedeceu. Seus lbios plidos tocaram a borda de vidro fino, sorvendo o lquido em pequenos goles.
Foi nesse momento que Rod entrou e, trocando um olhar preocupado com a namorada, aproximou-se de Harmony:
	Como  que voc est, maninha?
	Bem...  ela murmurou.  Apenas um pouco tonta. Quase desmaiei na frente de todo mundo.  E entregou o copo a Paula.
	Meu Deus, a missa est continuando, no ? Precisamos voltar para...
	Nem pense nisso  Rod a interrompeu, rspido, quase agressivo. Era seu modo de preocupar-se com a irm que tanto amava.
	Voc j foi longe demais com o seu senso de responsabilidade.
	Mas eu preciso...
	Voc precisa  ter um pouco de juzo, isso sim.
	No fale assim com ela  Paula interveio.  Sua irm est apenas esgotada pelos ltimos acontecimentos.
	E isso significa o qu?  Rod contraps.  Que ela deveria descansar... Mas, em vez disso, voltou a tocar em frente ao shopping e ainda ensaiou o coral e sabe Deus mais o qu!
	Fiz o arranjo para a pea de Bach  disse Harmony, com um plido sorriso.  No ficou bonito, Rod?
Aquilo era demais, at mesmo para o autoritrio Rod, que no conseguiu manter o tom de reprimenda. Ao contrrio: seus lbios entreabriram-se num sorriso comovido e a voz soou mansa ao dizer:
	Estava maravilhoso, querida. A cada ano que passa voc se torna mais hbil e precisa, em seu trabalho. Ficamos todos orgulhosos de voc, nesta noite.
	Obrigada, Rod  disse Harmony, suavemente. Tentou se erguer, mas ainda estava muito fraca.
	Escute, amiga...  Paula interveio.  O pessoal do coro conhece muito bem as prximas peas. E podem passar sem ns, nesse final.
	Qual ser a ltima msica da missa?  Harmony perguntou, levando a mo  fronte, que latejava-lhe terrivelmente.
	Uma obra de Hendell, lembra-se?
	Oh, claro  Harmony assentiu.  O pessoal  capaz de cant-la de olhos fechados...
	Exatamente  Paula concordou e dirigiu-se a Rod.  Querido,  melhor voltar para o banco e tranquilizar sua av e sua me. Elas devem estar preocupadas. Quanto a mim, ajudarei Harmony a se trocar e em seguida a levarei para casa. Rod fitou-a com ar de dvida.
	V  Paula insistiu.  Seja um bom menino e faa o que estou dizendo. Eu cuidarei de Harmony.
Lanando um ltimo olhar de apreenso  irm, Rod saiu.
	Quer mais um pouco de gua?  Paula ofereceu, a ss com Harmony.
	No, obrigada. S preciso de alguns minutos, para me recompor.
	Sim, querida... Tudo o que voc quiser.  E Paula puxou uma cadeira para sentar-se a seu lado.
Aps algum tempo, ambas ouviram soar os primeiros acordes da msica de Hendell, que finalizaria a missa. Harmony fitou a amiga com apreenso.
	Paula, no quero responder s perguntas dos nossos colegas sobre o assalto. Eu no aguentaria, sabe?
	Tudo bem, querida. Deixe-me ajud-la a se trocar e ento sairemos  francesa, isto , sem dizer boa noite a ningum. Mas voc sabe que no poder evitar, indefinidamente, que as pessoas lhe perguntem sobre o fato, no  mesmo?
	Sim, claro... Mas no hoje.
	Certo.  Estendendo-lhe a mo, Paula ajudou-a a levantar-se.  Venha. Quando o pessoal chegar, j teremos sado.  E conduziu-a at o vestirio, na sala contgua  sacristia.
Mas no conseguiram agir to rpido quanto Paula havia planejado. Ao abrir a porta, ambas depararam com uma pequena multido, formada pelos integrantes do coro, padre Bernard, vov Irena e Olvia.
	Voc devia ter mais juzo, bambina  disse a velha senhora, tomando as mos de Harmony entre as suas.
	A teimosia  marca registrada da famlia  Olvia comentou, lanando um olhar carinhoso, mas preocupado,  filha.
	Seu arranjo para a msica de Bach estava maravilhoso, Harmony  disse o padre Bernard.  Foi a mais bela surpresa que tive este ano.
	Nossa, eu me senti no cu quando cantava  afirmou uma coralista, fitando Harmony com admirao.
	Acho que os anjos vieram se juntar a ns, naquele momento  outra coralista secundou.
	Foi lindo...
	Lindo  pouco para definir o que senti... O que todos sentiram, alis.
	Precisamos cantar aquela pea novamente.
	Ela j est includa no repertrio,  claro...
Harmony olhava para todos com vaga indiferena. Era como se no fizesse parte da agitao que ocorria  sua volta. E Paula resolveu intervir:
	Vocs vo nos desculpar, mas temos de sair. Vou levar Harmony para casa.  E tomando-a pelo brao, acrescentou:  Venha, querida...
Lanando um vago cumprimento geral, Harmony deixou-se conduzir pela amiga.
	Parece que meu carro vai passar mais uma noite ao relento  comentou, desgostosa, j no ptio da igreja.  De sexta para sbado, ele ficou no estacionamento do shopping. E agora...  Harmony interrompeu-se ao avistar David Shepard, parado  distncia, olhando-a fixamente.  Oh, meu Deus  murmurou, apressando o passo.  Vamos logo, Paula.
Antes que David pudesse alcan-las, ambas entraram no carro de Paula e partiram.
	Voc no quer me contar o que est acontecendo?  Paula indagou, enquanto dirigia pelas ruas tranquilas da cidade.
	Contar...  Harmony repetiu, com voz fraca.  Sobre o qu?
	Sobre David Shepard e voc  Paula resumiu, com seu modo direto de ser.
	Oh, voc percebeu...  Harmony suspirou profundamente. 
	E como no poderia?  Paula retrucou, com um meio sorriso.  Quando David veio caminhando pela nave central da igreja, com aquele jeito elegante que s ele possui... E foi se sentar logo  atrs de Rod, voc ficou plida e quase desmaiou. E agora h pouco, l no ptio, quando ele tentou se aproximar, voc entrou em pnico. O que est havendo, amiga?
Harmony ficou em silncio por alguns instantes, antes de dizer:
	Posso pedir-lhe uma coisa, em nome de nossa amizade?
	J sei o que vai falar: "Cale a boca, Paula..." Acertei?
	No.  Harmony meneava a cabea, com uma expresso triste.  Falvamos assim quando ramos adolescentes, mas esse tempo j passou. Hoje, quero lhe pedir um pouco de compreenso... Ou seja: vamos deixar este assunto para amanh?
Paula respirou fundo. E ainda relutou em aquiescer:
	Tem certeza de que no seria melhor desabafar? Voc sabe que meu ombro amigo est sempre  disposio...
	Agradeo, mas realmente no quero falar sobre isso.
	Certo.  Num tom exageradamente dramtico, Paula acrescentou:  Parece que os amigos so para essas coisas, mesmo.
	Ah, e eu tambm gostaria de lhe pedir...
	Para no comentar nada com Rod  Paula completou. Acertei de novo?
	Sim, amiga. Promete que guardar segredo?
	 lgico. Alguma vez eu tra sua confiana, sua boba?
	No, Paula  Harmony respondeu, com veemncia.  Voc  a melhor amiga do mundo.
	A recproca  verdadeira.
No dia seguinte, Harmony aproveitou uma carona com Rod e apanhou seu carro no ptio da igreja.
A pequena Appleton fervilhava de comentrios sobre a magnfica apresentao do coral, na noite anterior. O destaque era a pea de Bach, com arranjo de Harmony, que fora um verdadeiro sucesso.
Infelizmente, o sbito mal-estar que ela sofrera, justamente no final da msica, tambm havia se tornado motivo de comentrios e suposies. Era voz corrente, na cidade, que aquilo fora consequncia do trauma que Harmony sofrera, como vtima do assalto em frente ao shopping.
As opinies se dividiam: alguns achavam que Harmony tinha sido insensata ao retomar o trabalho, sem permitir-se sequer uns poucos dias de descanso, que sem dvida a ajudariam a recuperar-se do susto. Outros a admiravam exatamente por isso: a coragem de reassumir 0 ritmo de vida normal, sem se deixar abater por aquele fato lamentvel.
Harmony procurava ignorar os comentrios que corriam a seu respeito. Na verdade, nunca se importara muito com a opinio pblica. E no era agora que iria comear...
Entrando em seu carro, ela acenou para Rod, que partia no furgo, e dirigiu-se ao conservatrio. Tinha um dia cheio pela frente e no queria se atrasar.
Nos finais de ano, Harmony sempre ficava sobrecarregada de tarefas. Muitas pessoas pediam seu auxlio para organizar a parte musical das festas escolares, comemoraes de firmas e outros eventos. Somando-se a isso a correria dos exames finais do conservatrio e as apresentaes dos alunos, Paula precisava se desdobrar para dar conta de tudo.
Mas isso no era problema, j que ela estava acostumada a toda aquela agitao. Se no fosse pelo assalto em frente ao shopping e pela entrada de David em sua vida... Aquele seria um ano igual aos outros.
O fato era que o contato com David causara um srio abalo em seu mundo organizado e previsvel. E Harmony sentia-se frgil diante dessa revelao.
Para todos os que assistiam  missa na noite anterior, seu sbito mal-estar tinha sido apenas uma consequncia do trauma causado pelo assalto. Mas Harmony sabia que a tenso provocada pela presena de David na igreja, bem como o medo de que Rod reagisse de maneira agressiva, havia sido o motivo que quase a fizera desmaiar.
Estacionando o carro na vaga exclusiva, que ela ocupava como professora do conservatrio, Harmony pegou sua pasta cheia de provas e partituras e saltou. Subiu as escadas de mrmore do estabelecimento, cumprimentando colegas e alunos, sempre com um sorriso gentil, sempre consciente do papel que desempenhava naquele reduto artstico que era a paixo de sua vida.
Harmony fora aluna do conservatrio musical de Appleton desde menina e, embora houvesse estudado com vrios professores particulares, jamais abandonara aquele ambiente onde se respirava msica e arte.
Formara-se com louvor h alguns anos e logo depois fora convidada a integrar o corpo de professores, uma tarefa que aceitara com honra e orgulho. Amava sua profisso e, mais do que tudo, adorava a msica. Sempre se sentira feliz naquele local, ensinando e pesquisando, descobrindo sutilezas musicais no poo infinito da arte.
	Voc chegou cedo  disse Paula, beijando-a em ambas as faces. E gracejou, como de costume.  A cama estava cheia de espinhos?
	No, srta. Russel  Harmony respondeu, no mesmo tom.  Apenas, hoje  dia de prova e eu resolvi chegar com um pouco de antecedncia.
Paula, professora de tcnica vocal, desempenhava tambm a funo de secretria administrativa do conservatrio. Ambas eram as mais jovens profissionais do estabelecimento.
	Que tal se almossemos juntas?  ela sugeriu.
	E uma tima ideia  Harmony aprovou.  Vamos comer na lanchonete do conservatrio, ou voc tem outros planos?
	Bem, a depende... Voc estar muito ocupada,  tarde?
	Sim. Mas s a partir das duas horas.
	Ento, vamos almoar fora. Eu pago.
	Aposto que o prato principal ser massas  disse Harmony, que j sabia da preferncia da amiga pela cozinha italiana.
	Acertou. Que tal a cantina do Luiggi?
	 perfeito.  Com um aceno, Harmony despediu-se e caminhou em direo  sala dos professores.
Abrindo o armrio que tinha seu nome gravado numa placa de alumnio, ela retirou o avental branco e vestiu-o sobre o vestido azul, que moldava-lhe o corpo de linhas perfeitas.
Pouco depois entrava na sala de aulas, onde um grupo de doze adolescentes conversava a meia-voz.
	Bom dia, futuros gnios do ano dois mH  ela os cumprimentou, num tom divertido.
	Ainda bem que voc est de bom humor, professora  disse um garoto de quinze anos.  Isso significa que a prova vai ser fcil?
Para quem estudou, sim  Harmony respondeu, com um sorriso.  Tirem uma folha pautada do caderno de msica e vamos ao ditado rtmico.

CAPITULO VI

Harmony consultou o relgio de pulso, que mar--cava onze e meia da manh. Em seguida anunciou  classe:
 Tempo esgotado, pessoal.  Dirigindo-se a uma aluna, solicitou:  Evelyn, por favor, recolha as provas.
Os alunos foram se levantando para sair, com ar severo e concentrado. Todos queriam o melhor resultado possvel, pois disso dependeria a passagem para um estgio mais avanado, no ano seguinte. O ensino musical em Appleton era realmente rigoroso.
Harmony recebeu as provas e dirigiu-se  sala dos professores. Deixou a pasta e o avental no armrio, e saiu para o estacionamento. Paula chegou cerca de dez minutos depois.
	Desculpe o atraso, Harmony. Tive de preencher alguns formulrios na secretaria, para serem enviados ainda hoje ao ministrio da educao. Voc esperou muito?
	Quase nada. Bem, iremos no seu carro ou no meu?
	No seu, claro!  E Paula gracejou:  J que vou pagar o almoo, voc pode muito bem arcar com o combustvel...
	Desde quando voc se tornou po-dura?  Harmony indagou, no mesmo tom.
Ambas riram, enquanto Harmony retirava as chaves da bolsa. Pouco depois, partiam em direo  zona leste da cidade, onde ficavam os melhores restaurantes da cidade.
A zona leste fora um bairro residencial e muito rico, em tempos remotos. Grandes manses ajardinadas erguiam-se entre os bosques de arvoredos, j quase sem folhas naquele princpio de inverno.
A Cantina do Luiggi funcionava justamente numa dessas manses e era famosa em toda a regio, por seus preos mdicos e cozinha de primeira classe. A prova disso era o grande nmero de carros estacionados no ptio de entrada.
	Deixe-me perguntar uma coisa  disse Harmony, ao estacionar.  Vamos comer e conversar... Ou o contrrio?
Aquela era uma brincadeira antiga, que ambas faziam h muito tempo.
	O contrrio  Paula respondeu.
	Ento, nada de pratos complicados e sobremesas malucas. Com voc falando o tempo todo, no h jeito de se prestar ateno ao que se come...
	Ora, isso no  problema, meu bem  Paula retrucou, contendo o riso.  Se  mesmo verdade que s eu falo, basta voc balanar a cabea respondendo sim ou no, enquanto saboreia as delcias do Luiggi.
Na verdade, o que Harmony queria saber era se Paula desejava conversar sobre algum assunto especial. Para tanto, teriam ocupar uma mesa reservada, onde pudessem falar  vontade. Caso contrrio, poderiam se acomodar no salo principal da cantina, cujas mesas, prximas umas das outras, no permitiam l muita privacidade.
Quando ambas entraram na cantina, vrias pessoas se voltaram para v-las passar. Jovens, belas, elegantes, possuam um encanto especial, que era um verdadeiro colrio para os olhos.
O maitre aproximou-se para receb-las, com ar solcito:
	Boa tarde, senhoritas. Querem se acomodar aqui, ou preferem...
	Um local mais reservado, por favor  Paula completou.
	Perfeitamente  o maitre aquiesceu, conduzindo-as a uma das varandas envidraadas, que dava para os fundos da propriedade.  O garom vir em seguida  anunciou, afastando-se.
Ambas agradeceram e acomodaram-se  mesa. Paula, que parecia um tanto ansiosa, logo comeou a falar:
	Estou numa situao difcil e preciso de sua opinio.
	Voc sabe que sempre pode contar comigo, amiga  Harmony afirmou, fitando-a com ar compreensivo e carinhoso.
Paula relutou. Ela, que era sempre to brincalhona, mostrava-se agora tmida para confessar os prprios problemas.
	No sei por onde comear  disse, por fim.
	Que tal pelo comeo?  Harmony tentou brincar. Em seguida encorajou-a:  E sobre Rod, no?
Nossa, como voc  perspicaz!  Paula exclamou, com divertida ironia.  Claro que  sobre Rod, amiga. Com quem mais eu poderia ter problemas, seno com ele?
	Muito bem...  Harmony sorriu.  Voc j conseguiu abordar o assunto. Agora, v em frente.
Paula suspirou.
	Voc se lembra daqueles exames que prestei no meio do ano, para uma vaga de professora em Toronto?
	Sim, claro. Todos os professores do conservatrio fizeram o exame, j que ele nos foi enviado pela secretaria de educao estadual.  Harmony fez uma pausa.  Mas aonde voc quer chegar?
	Bem...  Paula mordeu o lbio inferior, num gesto nervoso. Minhas notas foram as melhores, depois das suas e das de Clara McDonald.
	Ora...  Harmony continuava a sorrir.  Nenhuma de ns levou aquele exame muito a srio. Foi apenas um teste, entre os professores, para sabermos o grau de exigncia dos nossos colegas do Canad.
	A princpio, foi isso mesmo  Paula concordou, pensativa. 	Mas acontece que estou pensando em aceitar o convite para lecionar em Toronto. E, nesse caso, eu partiria nos primeiros dias de janeiro.
	Voc enlouqueceu?  Harmony reagiu, perplexa.  E o conservatrio, os alunos... E Rod... E eu?
Paula sorriu, mas havia uma nuvem de tristeza em seus olhos ao dizer:
	 bom saber que voc sentir falta de mim...
Harmony inquietou-se. Algo estava se passando no ntimo da amiga... Mas o que seria? Paula sempre lhe parecera to calma, to satisfeita com a vida.
	O que foi que aconteceu entre?  Harmony indagou. Voc e Rod brigaram?
	Para haver briga  preciso amor  Paula sentenciou, com lgrimas nos olhos.  E duvido muito que seu irmo sinta isso por mim.
	Ora, todos ns sabemos o quanto Rod  apaixonado por voc...
	S que faz sculos que ele no me fala de amor, nem me d ateno... E como se eu fosse um nada, entende?
	Voc est sendo injusta  Harmony censurou-a, num tom carinhoso.
	No...  Paula meneou a cabea, num gesto brusco.  Eu estou  farta, compreende? Todo mundo tem direito a exploses de nervos, achaques, incertezas... Todo mundo, menos eu.
	Por que est dizendo isso, amiga?
Ignorando a pergunta, Paula prosseguiu:
	Creio que mereci, at hoje, o lugar que sempre ocupei na vida das pessoas que me cercam. Nunca ningum me perguntou como me sentia, a respeito disso ou daquilo. As pessoas desenvolveram uma imagem de mim... E agora tenho de obedecer a ela.
	No entendi.
	Tenho de ser sempre a Paula boazinha, a que aceita tudo, a que concorda sem reclamar. S que estou cansada desse papel.
Harmony assentiu com um gesto de cabea, antes de confessar:
	Estou espantada, Paula. No sabia que voc se sentia assim...Por que nunca falou desse assunto comigo?
	Porque acho que s h pouco tempo me dei conta disso. E, tambm, sempre detestei as pessoas muito complicadas, do tipo que discordam de tudo e erguem polmicas idiotas sobre os assuntos mais simples. Mas essa mania de querer que as coisas fiquem bem, de evitar brigas a qualquer custo, acabou resultando mal...
	Como assim?
	Tornei-me uma pessoa apagada  Paula resumiu. Compreende o que isso significa? Uma pessoa a quem ningum pede opinio, pois j sabe que ela concordar com tudo. Alm do mais...
, Paula interrompeu-se, pois o garom se aproximava trazendo os aperitivos e o couvert. Assim que ele se afastou, ela prosseguiu:
	Rod me explicou por que no nos casaramos este ano. Explicou, entende? No props, discutiu, ou perguntou o que eu acha va do fato.
	Mas voc concordou  disse Harmony, num tom suave. Voc aceitou esperar at que meus irmos completassem a maioridade, para depois se casar com Rod.
	Exato  Paula aquiesceu, bebericando seu aperitivo: martni, com uma cereja e uma finssima camada de acar na borda da taa.  Eu concordei. E desde quando tinha o direito de discordar! Voc se lembra de quando ramos crianas e amos brincar? Voc, Rod e os outros determinavam tudo, sem perguntar pela minha opinio. E quando eu tentava me manifestar, diziam: "Est bem, Paula... Tudo bem, Paula..." E depois continuavam fazendo o que bem entendiam.
	Eu nunca imaginei que...  Harmony tentou apartar.
Mas Paula continuava em seu desabafo:
	Depois, quando ramos adolescentes e tnhamos de escolher um filme para assistir, ou uma pea de teatro, eu j sabia que meu papel era esperar, calada, pela sua deciso ou a de Rod.
	E voc nunca tentou se posicionar?
	Sim.  Paula suspirou.  Num domingo de manh decidi que no queria acompanhar vocs ao clube. Meu maio estava horrvel e eu tinha vergonha de me expor em pblico...
	E por que no nos falou sobre isso?
	Eu contei a Rod. E sabe o que ele fez?
	No.
	Foi ao clube com Susan Parker, sua colega de classe. Num tom amargo, Paula comentou:  Simples, no?
Harmony baixou os olhos para o copo a sua frente. Levou-o aos lbios enquanto se lembrava de um dilogo ocorrido recentemente entre sua famlia, durante o jantar. Vov Ire na dissera que Rod e Paula deveriam morar naquela casa, depois de casados, ocupando a ala esquerda do segundo andar. Quando Harmony lhe perguntara o que Paula achara da ideia, a av simplesmente sa- ;jj cudira os ombros. Era seu modo caracterstico de dizer que a opinio de Paula pouco importava.
Agora Harmony se dava conta de que sua grande amiga sempre fora rotulada, no contexto familiar, como uma pessoa de bom gnio, para quem tudo estava bem... E isso era uma grande injustia.
	Por favor, diga alguma coisa  Paula pediu, ansiosa.  Estou num beco sem sada e preciso de ajuda.
Harmony sorveu mais um gole de martni, antes de perguntar:
	Rod j sabe disso?
	Que estou pensando em ir para Toronto?
	Sim.
	No. E a  que est o grande problema. Vocs cometeram um grande engano comigo, aprisionando-me a uma imagem que jamais pedi para ter... E suponho que tenham feito o mesmo com o pobre Rod.
	Como?  Harmony indagou, sem entender.
	Desde criana, ele sempre foi o mais velho, o homenzinho do grupo, lembra-se?
Harmony assentiu e Paula continuou:
	Depois que seu pai morreu, Rod assumiu a direo da famlia e dos negcios. No teve nenhuma opo, a no ser ocupar o lugar que todos esperavam que ocupasse.
	Ele fez questo de assumir tudo  Harmony argumentou.  Ningum o obrigou a isso.
	As circunstncias o levaram a faz-lo, sem dar-lhe outra alternativa.
	Para ser franca, eu mesma me incomodo com a forma paternal com que Rod me trata. Ele s vezes exagera na autoridade...
	E o que mais o pobre Rod pode fazer, seno ser o irmo rabugento e chato da famlia?  Paula argumentou. Num tom pensativo, concluiu:  Talvez Rod tambm no seja como todos pensam que ele .
	Voc est indo longe demais com essa ideia  Harmony protestou.
Mas Paula prosseguia:
	Talvez ele seja outra vtima das circunstncias, ou das imagens preconcebidas. Rod, assim como eu, no pode agir de outra forma, a no ser a esperada pela sociedade e pela famlia. As vezes tenho muita pena dele, sabe?
	Eu tambm  Harmony confessou, com um suspiro, mordiscando uma torrada com pat. Em seguida sentenciou:  Voc o conhece muito bem, talvez mais do que eu. E sabe que Rod no concordar com sua ida a Toronto.
	Nesse caso, eu romperei o namoro.
	Paula!  Harmony exclamou, chocada.
	Eu o amo. Mas a menos que entremos num acordo...  Paula fez um gesto vago. No concluiu a frase, mas Harmony compreendia perfeitamente o que ela queria dizer.
	E quando pretende conversar com Rod?  indagou, aps alguns instantes.
	O mais rpido possvel. No posso adiar o assunto por mais tempo... Seria cruel.
Uma sbita ideia ocorreu a Harmony. Mas no queria, ao menos por enquanto, coment-la com a amiga. Por isso pediu:
	Espere at depois do natal.
	Por qu?  Paula indagou, confusa.
	E um pedido que lhe fao. Voc me atender?
Paula recostou-se na cadeira, segurando a taa de martni na mo. Por fim, concordou:
	Eu farei isso. No gostaria mesmo de estragar o natal de ningum, muito menos da famlia que amo como se fosse a minha.
Harmony suspirou, aliviada. A concesso da amiga dar-lhe-ia chance de intervir no assunto. Ainda no sabia ao certo o que diria a Rod, mas tentaria faz-lo entender que Paula merecia ser tratada com mais considerao, mais... Amor! O tempo era curto, mas Harmony sentia-se disposta a lutar pela felicidade daqueles dois seres que tanto amava e que estavam prestes a se perder um do outro.
	Vamos pedir o almoo?  Paula sugeriu. Estava mais tranquila, depois do desabafo.
	Sim  Harmony concordou.  Tenho de corrigir algumas provas e preparar a lista de notas para entreg-la ainda hoje.
O prato escolhido foi ravili ao molho branco. Num clima bem mais calmo e agradvel, as duas amigas conversaram sobre vrios assuntos. E sorriram quando o garom, impressionado com a beleza de ambas, atrapalhou-se na hora de servir os pratos, sobretudo o de Harmony, que quase transbordou de tanto molho.
A tarde no conservatrio transcorreu sem grandes novidades.
Entregue ao trabalho, Harmony no tinha tempo para pensar em seus prprios problemas, ou na conversa com Paula, no restaurante. Mas na verdade sentia-se inquieta, preocupada com o futuro.
Foi com uma sensao de alvio que ela concluiu o trabalho, no final da tarde. Guardou seu material no armrio e saiu em direo ao estacionamento. Estava cansada, desgastada, e queria chegar cedo em casa.
Sobressaltou-se ao ver David encostado ao seu carro, usando o uniforme da corporao e exibindo um sorriso gentil no rosto de traos perfeitos.
	l  ele saudou-a, num tom amvel.  Como vai voc, Harmony?
	Bem, obrigada.  Ela cruzou os braos, fitando-o com ar apreensivo. A sensao de v-lo ali era to excitante quanto assustadora.
	Gostei muito da apresentao do coral, ontem  noite  ele afirmou.  Contaram-me que foi voc quem fez o arranjo para a msica de Bach. Isso  verdade?
	Sim.
	Estava magnfico, Harmony.
Ela baixou os olhos, temendo enrubescer de prazer pelo elogio. Respirando fundo, comentou:
	No sabia que voc frequentava a parquia do padre Bernard. Nunca o vi por l.
	De fato...  Ele a fitava com intensidade.   que fiquei sabendo da apresentao do coral e resolvi assistir. Tive de me conter para no ir at a sacristia, quando voc se sentiu mal. Depois, fiquei aguardando no ptio, mas acho que voc no me viu, pois saiu to apressada, com sua amiga...
Havia uma espcie de interrogao nos olhos de David e Harmony decidiu ser franca:
	Eu o vi muito bem. Apenas, no podia falar com voc. Minha famlia inteira poderia aparecer no ptio e...
	Ento voc no quis falar comigo?  ele a interrompeu, ofendido.
	O que queria que eu fizesse, David?  ela argumentou, com ar severo.  Que provocasse uma cena entre voc e Rod?
	No era essa minha inteno  ele respondeu, no mesmo tom.  Na verdade, eu no queria provocar nenhum conflito.
	E mesmo assim foi at a igreja...?
	Desejava apenas ver voc cantando, nada mais. Depois, iria embora discretamente. Mas quando voc teve aquela espcie de desmaio, perdi o controle. Eu...  ele hesitou, antes de concluir  queria saber como voc estava.
Harmony sentiu que suas defesas caam por terra. Se ficasse mais um minuto ali, conversando com David, acabaria cedendo  emoo e isso seria perigoso...
Armando-se de coragem, ela o encarou com seriedade, antes de dizer:
	Agradeo sua preocupao mas, como voc pode ver, estou muito bem. Tudo no passou de um acmulo de emoes e desgaste. Agora, se me der licena, preciso ir para casa descansar.
David empalideceu, visivelmente magoado. Mas controlou-se e sua voz soou calma ao dizer:
	Voc no vai perguntar o que estou fazendo aqui?
	Pois bem, policial Shepard: o que voc est fazendo no estacionamento do conservatrio de Appleton, encostado no meu carro?
	Esperando voc terminar seu trabalho para lev-la  central de polcia. Cheguei h vinte minutos, mas achei melhor no interromper seus afazeres. Sei que no final do ano os professores trabalham dobrado, devido aos exames e outras coisas mais.
Dessa vez Harmony no pde evitar o enrubescimento que subiu-lhe s faces. A delicadeza de David era imbatvel, pensou, envergonhada por t-lo tratado de maneira to rspida.
	Devo ir at l para fazer o reconhecimento dos assaltantes, no ?  ela indagou.
	Dos suspeitos  ele a corrigiu.  Legalmente, s sero con siderados assaltantes depois do julgamento e condenao.
Ela assentiu com um gesto de cabea. E ento perguntou:
	Seu perodo de trabalho no comea s seis da tarde?
Foi a vez de David se surpreender. No imaginava que Harmony soubesse disso.
	E verdade  ele confirmou.  Mas acontece que estou substituindo um colega. Os policiais casados gostam de tirar frias nessa poca, para poderem viajar com a famlia, ou simplesmente ficar em casa para receber parentes que vm de longe. E os solteiros, como eu, acabam sendo escalados para ocupar o lugar deles.
E um procedimento normal na corporao.
	Compreendo  disse Harmony, que nem de longe poderia imaginar que David praticamente havia suplicado ao tenente Hoffman que o encarregasse de lev-la ao distrito. Naturalmente, o prprio John, motorista da viatura do tenente, poderia desempenhar aquela tarefa simples. Apontando a viatura estacionada na rua, a alguns metros de.distncia, ela indagou:  Preciso ir naquilo, ou posso segui-lo com meu carro?
	Claro que pode  ele respondeu, sorrindo.
J ia se afastando, quando Harmony o chamou:
	David?
	Sim?
	Voc no vai ligar a sirene... Ou vai?
Ele riu:
	No, Harmony. Este no seria um procedimento normal.  E brincou:  A menos que voc resolva fugir de mim e eu seja obrigado a persegui-la pelas calmas ruas de Appleton...
Ela riu, um pouco mais relaxada. Fugir de David? Era o que vinha fazendo nos ltimos anos... S que agora estava cada vez mais difcil manter-se  distncia.
David entrou na viatura e ligou a ignio. Esperou que Harmony manobrasse e se colocasse logo atrs dele. S ento partiu, em baixa velocidade.
Harmony respirou aliviada. Ainda bem que no fora obrigada a seguir no mesmo carro que David. A presena daquele homem tinha o estranho dom de desequilibr-la, fazendo-a sentir-se frgil e sem vontade prpria. Ou melhor, com uma grande tentao de ceder  vontade dos sentimentos... Era contra essa fora poderosa que Harmony tinha de resistir.
A tarde estava magnfica, com um cu prpura onde nuvens leves, esgaradas pelo vento glido que vinha das montanhas, pairavam como se imveis no ar.
David dirigia lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo para chegar ao distrito...
Ao parar no cruzamento que dava acesso  avenida que conduzia  central de polcia, David entrou numa rua lateral e pouco movimentada.
Harmony estranhou a manobra, mas seguiu-o mesmo assim.
"Talvez David prefira os trajetos mais tranquilos, longe dos faris e do movimento intenso da avenida", ela pensou.
De fato, a rua por onde agora trafegavam era muito agradvel. Cortava um bairro residencial, com suas casas antigas e conservadas, separadas umas das outras por quintais cercados de sebes vivas.
H muito tempo que Harmony no percorria aquela via alternativa. Por isso surpreendeu-se com a beleza da paisagem.
A viatura conduzida por David diminuiu a marcha e, sinalizando pelo pisca-pisca traseiro, parou perto do mirante, o ponto mais alto da cidade.
Harmony estacionou logo atrs, perguntando-se o que teria feito David interromper o trajeto.
Ele desceu da viatura e caminhou em direo  baixa amurada de pedra que circundava o mirante. Dali se podia contemplar toda a Appleton, cujas primeiras luzes se acenderiam dentro de alguns instantes, assim que o sol desaparecesse por trs das montanhas.
David sentou-se na amurada, tirando o quepe e passando a mo pelos cabelos negros.
	O que aconteceu?  Harmony perguntou, aproximando-se.
	Nada. S quis parar um pouco e contemplar este final de tarde caindo sobre a cidade.  Apontando a paisagem que se descortinava a sua frente, David comentou:  No  bonito?
	Sim  Harmony concordou, inquieta.  Mas no seria melhor se...
	Por que no se senta, Harmony?  ele sugeriu, interrompendo-a. Sem esperar pela resposta, confidenciou:  Sabe, sempre que estou de servio nessa regio, paro por aqui para pensar ou apenas para admirar essa beleza  concluiu, com um gesto que parecia abranger toda a paisagem em torno.
O comportamento de David era to natural, to simples, que Harmony cedeu. Sentando-se a alguns metros de distncia, deixou-se contagiar pela bela viso que tinha diante dos olhos.
A brisa que soprava era fria e estimulante, trazendo um perfume de pinho mesclado a flores. As montanhas erguiam-se ao redor, como deuses que circundassem toda a Appleton, num abrao protetor. O sol, j quase inteiramente oculto pelas montanhas, enviava seus raios s nuvens, que refletiam sobre a cidade os tons alaranjados do crepsculo.
Harmony estava emocionada, agora totalmente entregue quela hora mgica.
Que homem sensvel e misterioso era David Shepard, ela pensou, voltando-se para fit-lo com um misto de curiosidade e admirao. Ele parecia saber combinar ao e reflexo em todas as suas atitudes. Se no fosse o problema entre as famlias de ambos, Harmony gostaria de conhecer de perto, passo a passo, os mistrios daquele homem viril e belo, que agora vinha sentar-se a seu lado.
Os poucos homens que ela havia conhecido sempre lhe passavam uma impresso de ansiedade, como se estivessem famintos de algo que jamais poderiam possuir.
Mas David no... Ela concluiu, com um sorriso. Ele parecia guardar, em si, o centro.de equilbrio de seu prprio mundo. Era como se, atravs de seus olhos, tudo passasse a ter um valor diferente, mais pulsante, mais... Real.
Harmony estremeceu de emoo diante desse pensamento. David fitou-a com um misto de ternura e preocupao:
	Voc deve estar com frio, no?  E levantou-se.   melhor irmos embora.
Harmony foi invadida por um sbito pnico. De algum modo sabia que, se partissem naquele momento, algo precioso estaria se perdendo. E sem acreditar no que fazia, ela ergueu-se e estendeu a mo, tocando-lhe o brao.
	David...  Foi tudo o que pde dizer.
	Harmony...
O beijo era inevitvel. E Harmony se entregou ao contato daqueles lbios sensuais e macios. J havia beijado outros rapazes, em breves namoros dos tempos de escola. Mas nada a havia preparado para o que agora sentia, naquele contato terno e insistente. Todo seu corpo vibrava, como cordas tensas de um violino sob o arco. Era uma sensao indescritvel, que Harmony jamais experimentara. E ela se maravilhou com a perfeio daquele momento.
A ternura inicial foi dando lugar a uma lenta procura de carcias mais decididas e ousadas. Pequenos tremores abalavam os corpos, repercutindo um no outro em ecos lquidos de sabores intensos...
Os corpos se colaram, como se buscassem uma unidade ainda maior, uma comunho absoluta. Erguendo-se na ponta dos ps, Harmony enlaou o pescoo de David, que a atraiu ainda mais de encontro ao peito, acariciando-lhe as costas, tateando as curvas ocultas pelo grosso casaco de l.
As bocas se separaram por uma frao de segundo, o tempo de cair uma gota... E voltaram a se encontrar, como se tomadas por um sbito medo de perder-se uma da outra. O tempo no existia naquele crculo mgico. David e Harmony estavam como que encerrados, protegidos do mundo exterior pela paixo que os incendiava.
	Acontea o que acontecer...  ela sussurrou  jamais esquecerei este momento.
	Santo Deus  ele disse, num tom grave.  Suas palavras soam como uma despedida. O que est pensando, Harmony Martin?
	Na impossibilidade de ser feliz  ela respondeu, com infinita tristeza.
	Isto no existe... Ao menos para ns.  Tomado por uma onda de f e confiana, ele sentenciou:  Agora no tenho dvidas de que voc tambm me ama... Parece um sonho!
	Voc se esquece de que existe uma outra realidade l embaixo.  Ela apontava a cidade.  E aquela realidade  totalmente contrria  que estamos vivendo aqui.
Ele recuou um passo, fitando-a no fundo dos olhos.
	Nada  mais forte do que o amor entre duas pessoas, Harmony. E no estou me referindo  paixo, ou empolgao passageira. Falo de amor, na sua mais ampla concepo. Voc  a mulher da minha vida e, se quiser, serei o seu homem.
	David, por favor. Compreenda que...
	Sei de tudo o que voc poder dizer agora, sobre os motivos dos outros para proibirem nosso amor. Mas isso, sobretudo neste momento, no me interessa.
	Acontece que os outros, como voc diz, so as nossas famlias... Formadas por pessoas que amamos! E em parte somos responsveis por sua felicidade. Voc se esqueceu disso, David?
	O que voc quer que eu faa?  ele protestou, com uma expresso de amargura e revolta.  Que aceite o dio insano de nossas famlias como algo normal e belo? E pedir demais... Quero lutar por ns dois, pelo direito que temos de tentar a felicidade.
E se isso  ser egosta, segundo o duvidoso critrio dos outros, pois bem: assumirei o egosmo e suas consequncias. Mas farei isso por amor... Por amor a voc, Harmony.
Atormentada pelas contradies que trazia no peito, Harmony voltou-se e caminhou em direo ao carro, sem olhar para trs. David ainda tentou um gesto para det-la, mas compreendeu que isso seria um erro.
Com um profundo sentimento de frustrao, ele dirigiu-se  viatura. A noite caa sobre Appleton. As primeiras luzes da cidade se acendiam.

CAPITULO VII

David estava acionando o motor da viatura quando avistou, pelo espelho retrovisor, uma caminhonete amarelo-ouro, que reconheceu imediatamente. O veculo pertencia  sra. Gladys Silverman.
O que estaria ela fazendo ali, naquele local to distante de sua loja? Ele se perguntou. E concluiu que, ou a velha senhora tinha vindo buscar uma pea de antiqurio em alguma casa do bairro, ou ento decidira contemplar um pouco a paisagem.
"Ser que ela nos viu?", pensou, preocupado, partindo pela rua e certificando-se de que Harmony o seguia.
Bem, ainda que isso tivesse acontecido, no haveria problema. David sabia que a velha senhora tinha l suas excentricidades. Mas a tendncia a fofocas e mexericos no fazia parte de seus defeitos. Gladys Silverman vivia ocupada demais com seu trabalho, ou encabeando movimentos sociais, para preocupar-se com a vida alheia.
Pensando na velha senhora, David tocou o bolso da jaqueta onde, envolto num papel de seda azul, o broche em forma de borboleta permanecia como uma esperana.
Um sorriso estampou-se em seus lbios. Ele no era homem de desistir facilmente de seus sonhos. Jurara a si mesmo que aquele broche, comprado na loja de Gladys Silverman, um dia seria usado pela mulher que ele desejava como esposa, amiga, me de seus filhos e companheira... Por toda a vida.
O fato de saber que a dura realidade da vida indicava justamente o contrrio, ameaando-lhe a chance de ser feliz, no abalava em nada sua f no futuro que tanto sonhara. Esperara longos anos por uma oportunidade aproximar-se de Harmony. E a descoberta de que era correspondido em seu amor s o deixava ainda mais convicto e esperanoso. Prosseguiria na luta, a mais bela luta que a vida poderia propor... E o prmio era Harmony Martin, a mulher sem a qual a vida no teria o menor sentido.
Retesada diante do volante do seu carro, Harmony debatia-se em meio aos sentimentos contraditrios que a habitavam. A realidade do seu mundo havia se bifurcado em veredas totalmente distintas. Uma, cheia de doces sentimentos, encantamentos e surpresas. Outra, pedregosa, onde os arbustos espinhentos eram as manifestaes do ressentimento entre os Martin e os Shepard.
O que Harmony no podia negar era a evidncia assombrosa de sua atrao pelo homem que dirigia a viatura  sua frente, naquela rua tranquila cujos lampies haviam se acendido h pouco.
David conseguira, naqueles momentos em que haviam se beijado, provar-lhe o que nenhuma palavra poderia dizer: que o amor entre ambos era absoluto, incomparvel. Nunca, nem mesmo em seus sonhos mais loucos, Harmony imaginara possvel uma reao fsica t forte e arrasadora como a que experimentara nos braos de David.
	Talvez ele tenha razo  ela pensou, em voz alta.  Talvez tenhamos nascido um para o outro  concluiu, tomada por uma emoo que era a um s tempo alegria e assombro.
O bairro tranquilo ficou para trs. O centro da cidade estava prximo, com seu trfego movimentado. E Harmony procurou concentrar-se no trnsito. J no estava tensa como h pouco. Uma doce sensao a acompanhava em cada gesto, como se uma voz interior lhe dissesse que sim, que era preciso ter f e esperana no futuro, independente das dificuldades da vida.
Cerca de dez minutos depois, David estacionava em frente  central de polcia. Harmony parou logo atrs e saltou do veculo. Sem uma palavra, acompanhou-o  entrada do distrito. David conduziu-a ao gabinete do capito Brodwisky, que a recebeu com um sorriso gentil.
	Como tem passado, srta. Martin?
	Bem, obrigada.
	Com licena  disse David, afastando-se.  Preciso retomar minha ronda.
	Certo  o capito assentiu.  At logo, policial Shepard.
	At logo.  E David saiu, depois de despedir-se de Harmony com um gesto de cabea, ao qual ela correspondeu discretamente.
A ss com o capito, Harmony indagou:
	Bem, o que faremos agora?
	Est pronta para o reconhecimento?  o capito Brodwisky perguntou.
	Na verdade estou apreensiva  Harmony confessou.  Eu... Devo ficar frente a frente com os suspeitos?
	A senhorita teme represlias, no ?
	Sim  ela assentiu, com franqueza.  Se eles forem absolvidos, talvez queiram se vingar. E no temo apenas por mim, mas tambm por minha famlia. O senhor compreende, no?
O capito Brodwisky sorriu levemente. Aquela no era a primeira nem a ltima vez que vtimas ou testemunhas de um crime se assustavam diante da perspectiva de serem reconhecidas pelos suspeitos.
	Temos uma sala com parede falsa, que separa os suspeitos das vtimas ou testemunhas  ele explicou.  Um espelho especial d viso do lado em que a senhorita estar. Os suspeitos s vero sua prpria imagem refletida nele.  seguro, senhorita, no tema.
	Isso me tranquiliza muito  disse Harmony, acompanhando-o  sala de reconhecimento. A nica iluminao do local vinha atravs do espelho falso. Havia vrias cadeiras, dispostas como diante de uma tela de cinema. E Harmony acomodou-se em uma.
Tudo transcorreu muito rpido. Cerca de meia hora mais tarde, Harmony j estava de volta ao gabinete do capito Brodwisky, saboreando uma xcara de caf fumegante. Sentia-se satisfeita. A operao de reconhecimento havia sido um sucesso.
Sem o menor vacilo Harmony tinha apontado os agressores, em meio a quase uma dezena de outros desconhecidos. O capito, sabiamente, fizera com que todos usassem mscaras de esqui. E Harmony poderia ter se enganado com facilidade. Mas to logo havia feito o reconhecimento, ouvira uma confirmao eufrica do capito. Tal como ele esperava, Harmony identificado os dois suspeitos presos na noite do assalto, portando uma boa quantidade de dinheiro e levando mscaras de esqui no bolso.
Harmony terminou sua xcara de caf e depositou-a sobre a mesinha de centro. Em seguida despediu-se do capito:
	Acho que j vou indo. Obrigada por tudo, senhor.
	Eu  que agradeo, srta. Martin.
Ela caminhou pelo corredor, cumprimentando de passagem alguns policiais. Ao transpor a porta, viu David parado prximo a seu carro.
	E ento?  ele perguntou.  Tudo correu bem?
	Sim  Harmony respondeu, surpresa.  Voc no devia estar fazendo sua ronda, agora?
	Claro, mas achei que no faria mal esperar um pouco, para v-la uma vez mais  ele confessou, fitando-a com intensidade.  Diga-me, Harmony, voc conseguiu reconhecer os suspeitos?
	Consegui.  Ela sorriu.  No tive dvidas e o capito Brodwisky confirmou minha impresso. Os homens que reconhecieram os mesmos que foram presos na noite do assalto.
	Ento, ao menos de nossa parte, o caso est resolvido. O restante agora ficar por conta do juiz, advogado e promotor.  David fez uma pausa.  Voc est indo para casa, Harmony?
	Sim. Estou bastante atrasada e minha famlia pode se preocupar...  Ela retirou as chaves da bolsa.  Boa noite, David.
J ia entrar no carro, quando ele a chamou:
	Harmony...
Ela voltou-se, com uma interrogao nos olhos castanhos e luminosos.
	Este broche ainda  seu.  E ele ofereceu-lhe a borboleta trabalhada em ouro e pedras preciosas, envolta em papel de seda azul.
	Oh, David...  Harmony sorriu, com tristeza.  Por que faz tanta questo disso?
	Cada vez que voc tocar nesta jia estar me fazendo uma carcia  ele afirmou, emocionado.  A borboleta  um smbolo do que existe entre ns... A esperana de um dia sermos felizes juntos. Aceite-a, por favor.
Num gesto lento, Harmony estendeu a mo, fitando aqueles olhos azuis que brilhavam de expectativa. Seus dedos se fecharam em torno da jia, que ela recolheu, apertando-a contra o peito antes de guard-la no bolso do casaco de l.
	Um dia voc poder us-la abertamente  disse David.  E esse dia ser o mais belo de toda a minha vida  acrescentou, com um sorriso pleno de felicidade. Em seguida afastou-se, deva gar, pela rua.
Com um profundo suspiro, Harmony entrou no carro e partiu. David havia vencido, ela pensava, tomada por uma forte emoo. Pois estava claro que, ao aceitar a jia, tinha assumido um compromisso de amor com aquele homem. Secreto e frgil, mas... Um compromisso!
Um sorriso estampou-se no rosto de Harmony, seguido por uma sensao de apreenso. J no havia mais como fugir da realidade, nem do forte sentimento que a unia a David Shepard. Agora, viriam as consequncias...
	David, em que planeta voc est, meu filho?  Brbara Shepard indagou, depositando os talheres sobre o prato.
	O qu?  David piscou os olhos, como se retornasse de um sonho distante.  Voc disse alguma coisa, mame?
	Estou comeando a me preocupar. Nos ltimos tempos voc tem andado esquisito, alheio ao mundo, sem ligar para ningum. Parece seu pai quando assiste ao futebol pela TEVE.
	Perdo, mame  David desculpou-se.  Eu estava distrado.  E voltou a comer, espetando o garfo numa batata corada, sem nenhum entusiasmo.
	Deixe-o em paz, Brbara  disse Glenn Shepard, servindo-se de uma salada de ervilhas e folhas.  Ele est cumprindo horrio dobrado no trabalho.  natural que chegue em casa cansado, sem vontade de conversar. Voc deveria parar de trat-lo como se ele fosse um garoto.
David olhou o pai com gratido. Aos cinquenta e oito anos, Glenn Shepard ainda era um homem elegante e bem conservado, que no aparentava a idade que tinha. Entre os cabelos, escuros como os de David, brotavam alguns fios brancos. Os olhos cor de safira, profundos, eram a herana mais marcante que passara aos filhos. Pois todos os Shepard tinham olhos azuis.
	Escute aqui, Glenn...  Brbara argumentou  no importa a idade dos filhos, nem seus afazeres. Uma me sempre se preocupa;  natural que seja assim.
	Ora, pare de perturb-lo com essas perguntas bobas, Brbara. Voc alguma vez j imaginou que David deve ter uma vida pessoal, da qual nada sabemos?
	O qu?  Brbara Shepard reagiu, irritada.

	Sim, minha querida, ponha a mo na conscincia e compreenda que o tempo passou. David j no  mais o nosso menino, como voc costuma cham-lo.
	No me venha com essas conversas de pai moderno e liberal  Brbara repreendeu o marido.  Voc tambm se preocupa tanto ou mais do que eu. Apenas no confessa isso, para no parecer antiquado e chato.
	Sua me sofre de excesso de imaginao  Glenn comentou, sorrindo, com o filho.
Enquanto isso, a ateno de Brbara se voltava para a filha caula, que mal havia tocado no prato. Fitando-a com ar de reprovao, a velha senhora disse:
	Voc est querendo se tornar anmica, Shawna? Vive comendo folhas de alface, legumes e suco de limo... Isso l  jeito de se alimentar? Essas coisas, por mais saudveis que sejam, no podem suprir por completo um organismo adulto, que necessita inclusive de protenas.
	Minha dieta s vai durar uma semana, mame  Shawna argumentou, com a rebeldia de seus dezoito anos.  Ou voc quer que eu seja a primeira bailarina da histria a se apresentar com celulite e excesso de peso?
	Pronto!  Brbara meneou a cabea, com ar dramtico.  Agora essa menina s pensa na apresentao da escola de bale, que s vai ocorrer no ms que vem!  E acrescentou em seguida:
	O excesso de peso s existe na sua cabea, filha. Voc tem um corpo muito bonito. E agora trate de comer este peito de frango, que fiz especialmente para voc. Protenas, para quem faz exerccios fsicos, so indispensveis.
	Est certo, eu como  Shawna obedeceu, num tom irreverente. 	No vamos armar um conflito internacional por causa disso.
	Muito bem, filha  Brbara aprovou, satisfeita.
Shawna provou um pedao de frango e em seguida fitou David com ar maroto:
	Parece que meu querido irmo est com problemas. Mas enquanto todos pensam que se trata de excesso de trabalho, eu adivinho outras coisas...
	Do que voc est falando, menina?  Brbara indagou, franzindo a testa.
	Eros, mame  Shawna respondeu, com um sorriso.  Ser que voc est to velha assim, que at se esqueceu do que  romance, namoro... Amor?
Glenn Shepard sorriu.
	J no era sem tempo  comentou, entre surpreso e satisfeito.  Trinta anos  uma idade bastante apropriada para se pensar seriamente em constituir uma famlia.
David tentava manter-se alheio  conversa, mas o fato era que estava tenso. Ser que Shawna sabia de alguma coisa sobre ele e, Harmony? Teria corrido algum comentrio na cidade?
	Isso que Shawna disse  verdade, filho?  Brbara indagou, fitando-o com ateno.
	O qu?  David retrucou, no tom mais neutro que conseguiu.
	No embarace o rapaz com esse tipo de pergunta  Glenn censurou a esposa.  Se David tiver de nos contar alguma coisa, ele o far no momento propcio.
	O fato de eu ser a caula da famlia no significa que seja tambm a mais estpida  disse Shawna, com sua irreverncia habitual.  Os silncios prolongados de David, esses olhos perdidos na distncia e essa falta de apetite j deixam bem claro o que est se passando... Ao menos para mim.
	Ora, no diga tolices, bailarina  David repreendeu-a, num tom delicado, mas firme.  Voc anda lendo romances demais.
	Viram s como ele ficou irritado?  Shawna ria, apontando o irmo com o garfo.  Parece que acertei em cheio...  E cantarolou:  "Quando o amor acontece, a gente perde a cabea..."
	Tenho a impresso de que vou dar umas palmadas no traseiro de uma futura bailarina famosa...  disse David, irritado.
	Controle os nervos, Romeu  Shawna continuava a provoc-lo.  Todos ns, humanos, acabamos sendo flechados por Cupido, mais cedo ou mais tarde...
	J chega, Shawna  Brbara interveio.  Deixe seu irmo em paz e termine seu jantar.  Voltando-se para o marido, anunciou:  A propsito, Glenn, esqueci de lhe contar que Jolene ligou de Nova York. Ela e Matthew chegaro dentro de duas semanas, para passar o Natal e o Ano-Novo conosco.
	Jolene no deveria viajar, no estado em que se encontra  Glenn sentenciou, preocupado.
	Tenha a santa pacincia, papai...  Shawna intrometia-se novamente na conversa.  Ns no estamos mais no tempo das diligncias puxadas a cavalo. Sua filhinha predileta viajar num avio confortvel e estar muito segura, em seus seis meses de gravidez. Ah, e por sinal devidamente acompanhada pelo marido, com quem voc, alis, no simpatiza muito.
	Eu?  Glenn reagiu, espantado.  No simpatizo com Matthew? De onde voc tirou essa ideia, menina?
Foi a vez de Brbara rir. E at mesmo David trocou um olhar cmplice com a irm, meneando a cabea.
De fato, Matthew, o marido de Jolene Shepard, era um tanto esnobe e prepotente. Parecia ter prazer em encontrar defeitos na pequena Appleton. E isso irritava Glenn Shepard, bem mais do que ele gostaria de admitir.
	Sei que no morro de amores por Matthew  Glenn afirmou, ao fim de um longo momento.  Mas o importante  que ele ama Jolene e lhe d o mximo respeito. Isto sim  que conta.
	Muito bem, papai  Shawna aplaudiu, com ar brincalho.  Voc pode ter l suas rabugices, mas possui muito bom senso. Vamos ver se isso funcionar, quando voc oferecer sua champanhe predileta a Matthew e ele criticar o sabor.  E Shawna imitou a voz levemente fanhosa do cunhado:  "Hum... Este champanhe  bom, sr. She-pard... Mas um tanto cido demais para o meu gosto." Todos riram e at mesmo Glenn no pde ficar de fora.
	Se no fosse o bale para queimar as energias dessa menina, no sei o que faramos com ela.
	A energia excessiva  prpria da juventude  Glenn comentou, voltando a comer.
Alguns momentos de silncio se passaram, at que Brbara perguntou ao marido:
	Voc acha que Douglas vir este ano?
Glenn fitou a esposa com um misto de impacincia e ternura. Todos os anos, naquela poca, Brbara falava do cunhado, transferido para Chicago logo aps ter baleado William Martin, devido a um lamentvel engano. Nunca mais Douglas Shepard voltara a Appleton. E, naturalmente, no viria naquele ano.
	Voc sabe o quanto os policiais trabalham, na poca das festas, Brbara.  Glenn tentava confortar a esposa.  Talvez Douglas consiga uma folga, mas... Quem pode garantir?  acrescentou, apenas a ttulo de consolo. Pois lembrava-se muito bem das palavras do irmo, ao partir: "Jamais voltarei a pr os ps nesta cidade ingrata."
Lanando um olhar para o pai, David compreendeu perfeitamente sua tristeza. De repente, o clima entre a famlia ia se tornando amargo, pesado.
	No existe mesmo justia neste mundo em que vivemos  Brbara lamentou-se, tornando a abandonar os talheres sobre o prato.  Doze anos se passaram e a opinio dos moradores de Appleton ainda pesa sobre o pobre Douglas. Tambm, os Martin no deixam ningum esquecer da tragdia!
	Mame, que tal mudar de assunto?  Shawna interveio, aborrecida.
Mas Brbara continuou, ignorando a repreenso da filha:
	Uma tarde dessas convidei Laurell Duncan para vir aqui em casa. Ela est organizando um bazar de fim de ano no clube feminino e eu me dispus a ajud-la. Convidei-a para um ch, a fim de tratarmos sobre o assunto. Conversamos longamente e depois falamos de amenidades. De repente, sem que eu esperasse, ela comentou a tragdia. Levantei-me, fui at a cmoda e peguei o envelope com o resultado das investigaes feitas na poca. Bati o dedo sobre o veredicto e fiquei olhando-a nos olhos.
	E suponho que Laurell Duncan tenha reconhecido a inocncia de Douglas  Glenn comentou, ansioso para encerrar aquela conversa triste, que no levaria a lugar algum.
	Ela simplesmente sorriu, como se dissesse: "Fidelidade corporativa... Onde j se viu um policial condenar outro?"
	Este  um assunto velho, mame  David protestou, incomodado com o rumo que a conversa ia tomando.   melhor tentar esquec-lo.
	Pela primeira vez concordo com meu querido irmo  disse Shawna, empurrando o prato vazio.  Voc vive num mundo particular, mame. E parece no reconhecer que o tempo passou, que a sociedade de Appleton agora somos ns, seus descendentes... E herdeiros das confuses que vocs aprontaram.
	Que conversa  essa, menina?  Brbara encarou a filha com uma expresso severa.
	Mame, caia na realidade, por favor! Esse dio entre a nossa famlia e os Martin j est me tirando do srio.
	O qu?  Brbara empalideceu.
	 isso mesmo que voc ouviu, mame. Eu, pessoalmente, no tenho nada contra aquela famlia. Sinto muito pelo que aconteceu h doze anos, mas no podemos nos hostilizar eternamente por causa disso.
	Cale-se, Shawna -*- David ordenou.
Mas a irm no lhe deu ouvidos.
	Os Martin, se pensarmos bem, so gente como ns. Trabalhadores, pacatos... Enfim, pessoas de bem. Harmony Martin, por exemplo... Ela foi minha professora de tcnica vocal, no ano passado, por uma semana. Estava substituindo um professor de licena.
	Voc nunca nos contou sobre isso!  Brbara fitava a filha com ar ofendido.
	Claro que no, pois acabaria provocando um colapso em voc ou em papai  Shawna defendeu-se. E continuou:  Pois sabe o que eu achei de Harmony? Que ela  uma professora competente e um amor de pessoa. Tratou-me muito bem, com carinho e simpatia, sem ligar a mnima para esse dio idiota que vocs e os outros Martin carregam h tanto tempo.
	Shawna...  Glenn advertiu-a, com voz velada , veja l como fala com sua me.
David estava sem ar. O nome da mulher que amava acabava de ser lanado na conversa. E o resultado prometia ser catastrfico.
	Deixe-a falar, Glenn  disse Brbara, recostando-se na cadeira e fitando a filha no fundo dos olhos.  O que mais voc tem a nos ensinar, srta. Sabedoria? Shawna abrandou a voz:
	Mame, eu sei o quanto esse assunto  doloroso. Mas nada do que fizermos vai modificar o passado. Eu tambm amo tio Douglas, como a um segundo pai. Lembro-me de quando ele me levava para passear, de quando me trazia presentes que at hoje conservo em meu quarto. Eu tinha apenas seis anos, na poca em que tudo ocorreu. Mas chorei muito e sempre sentirei saudade dele.
Um pesado silncio caiu sobre o ambiente. E Shawna voltou a falar:
	A vida tem de continuar, mame. No podemos passar o resto de nossos dias odiando os Martin. Santo Deus, isso at parece aquela histria de Shakespeare, chamada Romeu e Julieta. S faltava eu me apaixonar por Rod Martin, ou David por Harmony Martin...
	Nunca mais repita essa estupidez na minha frente, Shawna Shepard  Brbara ordenou, com uma expresso de fria nos olhos.  Eu preferiria antes que vocs...
	Brbara!  Glenn exclamou, atnito, tomando a mo da mulher por sobre a mesa.
	Que ns... o qu, mame?  Shawna insistiu, num fio de voz.
	Mana, por favor  David tentou contemporizar.
	Diga, mame  Shawna continuava.  Voc preferiria que eu e David...
	Cale a boca e v j para o seu quarto  Glenn ordenou, num tom que no admitia rplicas.
Brbara chorava em silncio, com os olhos fechados, deixando que as lgrimas lhe corressem pelo rosto envelhecido pelo sofrimento.
	Mame...  David quis consol-la.
Mas Glenn fez-lhe um gesto para que sasse e os deixasse a ss. Shawna e David afastaram as cadeiras e deixaram a mesa em silncio.
	Voc no devia ter feito isso  ele disse  irm, quando chegaram  sala.
	No mesmo?  Shawna tinha os olhos rasos de lgrimas.
Seu corpo esbelto de bailarina estremecia a intervalos, tamanha era a tenso que a dominava.  Algum tinha de dizer isso a eles, mano. Essa insensatez precisa acabar. Todo Natal  a mesma coisa; eu no aguento mais.
	Fale baixo  David ordenou, rspido.  Voc foi impiedosa e dura com mame.
	E existe outro modo de fazer com que ela me oua?  Shawna estava descontrolada. Apontando um dedo trmulo para David, anunciou:  Se este clima pesado continuar, vou passar o Natal na casa de minha amiga Meredith. Os pais dela no costumam estragar as festas de fim de ano com assuntos mrbidos e sem nexo.
	Shawna, oua...  David tentou aconselh-la.
Mas a irm j no o ouvia. Correndo, alcanou a escada que conduzia ao seu quarto, subindo os degraus de dois em dois.
Um terrvel desnimo tomou conta de David, que encostou-se  parede da sala, com o corao oprimido pela angstia. Agora compreendia que ali, naquele lugar onde fora criado, ali no seu lar, o nome da mulher que amava jamais poderia ser pronunciado.
Agora sim, David tinha certeza de que aquele Natal seria um verdadeiro inferno.

CAPITULO VIII

O movimento era intenso na avenida principal de Appleton, naquela quarta-feira. O sol percorria o cu azul-plido e sem nuvens. O vento que soprava das montanhas era frio e estimulante.
Harmony atravessava o cruzamento, acompanhada pelos gmeos, Christopher e Brandon. Os trs compunham um belo quadro. No centro, Harmony, com seus cabelos loiros e anelados, usando um elegante casaco de l cor de marfim, que caa-lhe abaixo dos joelhos sobre a cala da mesma cor, com detalhes em marrom. Os gmeos, loiros como a irm, usavam jeans, tnis e camisas de mangas compridas, brancas. A diferena no vesturio ficava por conta dos suteres de l, tricotados a mo por vov Irena. O de Brandon era cor de vinho, com losangos amarelos. O de Christopher, verde-musgo com retngulos bancos. Ambos estavam animados e sorridentes, pois iam s compras de Natal.
Para a famlia Martin, Papai Noel era uma figura simblica e romntica. Mas as crianas jamais tiveram dvidas sobre quem pagava os presentes de Natal. Olvia Martin costumava dizer que as coisas que Papai Noel trazia em seu tren, na noite do Natal, no eram bens materiais mas sim jias impalpveis, como amor, dignidade, honra, paz, harmonia... Fora essa a histria que ela contara para Rod, em seus primeiros anos de vida. E a repetira para Harmony e os gmeos.
Naquele ano, Harmony havia se disposto a arcar com as despesas dos presentes dos caulas. Ambos queriam novas roupas de esquiar, pois vinham usando as mesmas nos ltimos dois invernos. Tinham crescido bastante e precisavam mesmo de uma renovao no vesturio.
Era justamente por isso que estavam a caminho das lojas especializadas em trajes esportivos: para que tanto Christopher quanto Brandon escolhessem os que mais lhes agradassem.
Os trs terminaram de atravessar o cruzamento e seguiram pela calada, em direo ao centro comercial.
	Bom dia, Harmony Martin  disse Gladys Silverman, aproximando-se.  Voc anda sumida...
	Bom dia, sra. Silverman  Harmony cumprimentou-a, alegre por rev-la.  Ando muito atarefada com os exames de final de ano, os concertos de Natal e uma srie de outros afazeres  explicou.
	Compreendo. Mas ser que voc no teria jeito de escapar um pouco dos compromissos e fazer uma visita ao Thesouros de Segunda Mo?  ela se referia  loja da qual era proprietria.
	Faz tanto tempo que voc no passa por l.
	E mesmo  Harmony assentiu, com um sorriso.
Ia dizer algo mais, quando a velha senhora indagou:
	Essas duas pinturas so seus irmos?
	Sim.
	Este  Brandon, e este, Christopher  Harmony apresentou-os.
Os meninos adiantaram-se e cumprimentaram a velha senhora. Gladys Silverman vestia-se de maneira sbria... E um tanto excntrica. Usava calas de l e um casaco de feltro cinturado, que a fazia lembrar um duende ou algum personagem de contos de fadas. Os gmeos a fitavam com um misto de surpresa e encantamento.
	Voc sabe que sou viva e vivo sozinha, Harmony  disse Gladys.  Tambm, no tenho muita pacincia com pessoas da minha idade. A maioria delas s sabe falar de assuntos chatos como o custo de vida, a liquidao da semana, a dor de dentes do filho, a cerveja do marido... Voc sabe.
Harmony riu e ela continuou:
	Assim, por livre escolha... Ou por falta dela, vivo bastante isolada. Voc no gostaria de aparecer l em casa, levando esses garotos encantadores?  Voltando-se para os gmeos, explicou:
	O Thesouros de Segunda Mo funciona no andar trreo da casa que meu marido me deixou. Eu moro no andar de cima.
O convite da velha e gentil senhora pegou Harmony de surpresa. Mas era irrecusvel...
	Na sexta-feira  noite estarei livre.
	Otimo.  Gladys Silverman sorriu, satisfeita. E perguntou aos meninos:  Vocs iro com sua irm?
Ambos voltaram-se para Harmony, fitando-a com expectativa.
Podemos?  Brandon indagou.
Acho que conseguirei convencer mame a deix-los ir comigo  disse, por fim.
Os gmeos sorriram de contentamento. Estavam curiosos e, como era prprio da idade, ansiosos para descobrir o mundo e conhecer pessoas diferentes.
	Gostaria de frisar um detalhe importante  disse Gladys Silverman, com seriedade.
	Sim?  Christopher indagou, interessado.
	Vocs no devem comer nada, depois das cinco da tarde. Quero v-los com apetite suficiente para os pratos que vou preparar.
	Combinado!  ambos afirmaram, quase ao mesmo tempo.
	A que horas devemos chegar?
	As sete... Est bem para vocs?
	Perfeito  Harmony respondeu e despediu-se.  Foi um prazer rev-la. E obrigada pelo convite.
	Estarei esperando. - Gladys Silverman afastou-se, com um aceno.
	Ela  to diferente  disse Brandon, entusiasmado.  Eu no sabia que voc conhecia pessoas assim, to...
	Interessantes?  Harmony completou, com um meio sorriso.
	  Christopher concordou.  Mas ela me parece meio... maluquinha.
	Christopher Martin!  Harmony censurou-o.  Estes no so modos de um garoto de quatorze anos referir-se a uma pessoa mais velha.
O menino corou, envergonhado. Mas Harmony tinha de reconhecer que sua querida amiga Gladys Silverman era uma pessoa um tanto excntrica. E isso se tornava ainda mais evidente, numa cidade provinciana e conservadora como Appleton.
O que a velha senhora pretendia, com aquele convite? Ela se perguntou, lembrando-se de que a borboleta de ouro e pedras preciosas, que David havia lhe dado, viera da loja de Gladys Silverman. Uma leve inquietao instalou-se em seu ntimo. Mas Harmony venceu-a.
"Bobagens..." Disse para si. "Estou vendo ameaas por toda a parte, devido ao meu estado frgil." Tomando a mo dos gmeos, ela continuou caminhando em direo ao centro comercial.
David patrulhava as ruas principais dos bairros, dirigindo a viatura do departamento de polcia. Tinha sido escalado, naquele dia, para a ronda motorizada. Esse trabalho sempre requeria dois policiais, por uma questo de segurana. Mas o parceiro escalado para acompanhar David havia faltado, para comparecer  fest-de encerramento da escola onde seu filho estudava.
David sentia-se bastante solitrio, fazendo a ronda sozinho. Quando patrulhava a p, podia ao menos parar para cumprimentar os conhecidos e isso o distraa. Mas, dirigindo, no podia se dar a esse luxo.
Bem, no adiantava reclamar, pois tinha uma obrigao a cumprir e ainda faltavam algumas horas para encerrar o turno.
Ao entrar na avenida que dava acesso ao bairro onde a sra. Gladys Silverman morava, David avistou um furgo cinza fazendo uma converso proibida, em meio a um cruzamento bastante perigoso. Ligando a sirena, num leve toque de advertncia, ele fez um sinal ao motorista do veculo para que encostasse no meio-fio. A ordem foi imediatamente obedecida e David estacionou logo atrs.
Descendo da viatura, caminhou sem pressa em direo ao furgo. Notou, pela placa, que o veculo vinha de outro Estado. Aproximou-se da janela do motorista e pediu-lhe os documentos do carro, junto com a carteira de habilitao.
	Appleton  uma cidade tranquila  disse, num tom de calma advertncia.  O ndice de acidentes de trnsito por aqui  quase nulo, senhor...  David interrompeu-se e olhou os documentos.
	Sr. Mayfield  concluiu.   de Los Angeles, pelo que consta aqui nos documentos, certo?
	Exato.  O motorista apontou a mulher a seu lado.  Viemos para desfrutar a estao de esqui e visitar familiares. Pretendemos passar o Natal e o Ano-Novo aqui em Appleton.
	Muito bem, sr. Mayfield  David aquiesceu.  Como acabei de dizer, quase no temos acidentes de trnsito por aqui... E faltam poucos dias para terminar o ano. Aps uma pausa, acrescentou:
	E ns dois certamente no gostaramos de acrescentar uma multa s estatsticas. Isso poderia prejudicar a fama de nossa cidade, conhecida em todo o Estado como uma das mais civilizadas no trnsito... Certo?
	Oh, claro  o motorista concordou.
	Pois ento, tenha a gentileza de nos ajudar a manter a fama de Appleton. E a melhor forma de fazer isso  no cometer mais nenhuma infrao.
	Eu lhe prometo, senhor.  O motorista fitou-o com expectativa.  Vai me multar?
David sorriu:
	No.  David devolveu-lhe os documentos.  Vou apenas desejar-lhe um feliz Natal... E tambm para a sua senhora  finalizou, olhando para a mulher ao lado do marido.
	Oh, muito obrigada  ela agradeceu, retribuindo o sorriso.
	Eu tambm lhe agradeo  o motorista secundou, aliviado. 	Podemos ir, agora?
	Claro, seno, chegaro atrasados.
Ele agradeceu e partiu, em baixa velocidade. Puxando seu bloco de anotaes do bolso, David escreveu o nmero da placa, a procedncia e o nome do motorista, que havia memorizado. No ia efetuar a multa. Mas guardaria para si aquelas anotaes. E se o motorista cometesse uma segunda infrao... Bem, ai teria de pagar por ambas.
David retornou  viatura e seguiu pela avenida, entrando na rua onde ficava a loja e residncia da sra. Gladys Silverman. E logo avistou caminhonete da velha senhora, que tinha acabado de estacionar em frente ao Thesouros de Segunda Mo.
Gladys desceu do veculo. Contornando-o, comeou a retirar algumas caixas de papelo da carroceria.
Estacionando a viatura, David saltou e aproximou-se para ajud-la.
	Boa tarde, sra. Silverman  saudou-a, num tom simptico. 	Ol, policial Shepard.
	Deixe que eu carregue essas caixas, que alis parecem bastante pesadas.
	Obrigada.  Ela sorriu.  Voc chegou em boa hora. Eu estava justamente pensando num jeito de levar tudo isso l para dentro, sem deslocar a coluna...  comentou, num tom bem-humorado.
	Parece que a senhora resolveu esvaziar as prateleiras do mercado...  David olhava, admirado, para o grande volume de compras.
	O que se vai fazer, no  mesmo? Raramente tenho pacincia para ir ao mercado. Quando vou, preciso trazer tudo o que necessito. Assim, poderei levar um bom tempo at repetir a proeza.
David riu e pegou uma grande caixa nos braos. A velha senhora j se adiantava para abrir a porta da loja.
	Por aqui...  ela indicou uma escada  esquerda do hall de entrada, que conduzia s dependncias que ocupava, no andar acima da loja.  Vou subir na frente, para acender a luz.
David fez vrias viagens da caminhonete at a residncia da velha senhora. Por fim, terminou a tarefa:
	Esta era a ltima  disse, depositando a quinta caixa no cho, ao lado do armrio da cozinha.
	Otimo. Muito obrigada pela gentileza.
	No h de qu, sra. Silverman.
	Agora sente-se enquanto preparo um ch para ns.
	Agradeo, mas estou em servio e no posso interromper...
	Ora, no levar mais do que alguns minutos  Gladys Silverman insistiu, enquanto enchia de gua uma chaleira de me-gata, que mais parecia uma preciosa pea de antiqurio.
	Est bem  David concordou.  Retirando um molho de chaves do bolso, depositou-as sobre a mesa,  A propsito, aqui esto as chaves da caminhonete. Tomei a liberdade de tranc-la.
	Obrigada novamente, policial Shepard.
	Bem, vou fechar a viatura e voltarei num instante. Com licena.  E David afastou-se pelo corredor, em direo s escadas que conduziam ao trreo.
Enquanto descia os degraus, seus pensamentos voavam para longe dali. Trs dias haviam se passado, desde que tivera Harmony nos braos. E a vontade de rev-la era uma tortura constante.
Naquela manh, antes de sair com a viatura, havia se aproximado de um telefone pblico e, com o corao aos saltos, discado o nmero da casa dos Martin. Mas no fora Harmony quem atendera  ligao e sim uma outra mulher... A me ou a av, com certeza. E, assim, David tinha desligado, sem nada dizer, tomado por um sentimento de vergonha.
Aquela ao, prpria de um colegial apaixonado, mas totalmente incabvel para um homem de trinta anos, havia dado a David a extenso exata de sua paixo... E de seu descontrole! O equilbrio emocional que sempre fora sua marca registrada estava seriamente ameaado. E David no tinha a menor ideia do que fazer, para vencer a ansiedade que o acompanhava a cada segundo.
Meneando a cabea com tristeza, ele saiu para a calada e atravessou a rua. Trancou a viatura e voltou para a companhia de Gladys Silverman, que j havia disposto a mesa com xcaras de porcelana azul e pratinhos de sobremesa contendo biscoitos doces e salgados.
	V lavar as mos e sente-se, policial Shepard. Servirei o ch num instante.
Ele obedeceu, caminhando at o lavabo contguo  cozinha. Em seguida voltou  mesa e sentou-se. No centro, sobre a toalha de linho branco, o bule de ch deixava escapar uma fumaa tnue, pelo bico. O aroma era agradvel. Recendia a erva-doce mesclada a outras folhas.
	Prove estes biscoitos de nata  a velha senhora sugeriu, empurrando um pratinho na direo de David.  Eu mesmo os fiz, seguindo uma receita que pertenceu a minha av.
David aquiesceu, provou... E aprovou:
	Que delcia, Gladys! Voc tem mos de fada.
	Ah!  a velha senhora exclamou, rindo.  Bem diziam os antigos que o caminho para o corao dos homens passa pelo estmago. Antes, voc me chamava de sra. Silverman. E agora me trata por... Gladysl
David reagiu, embaraado:
	Oh, queira me desculpar. Fiquei to entusiasmado com o sabor dos biscoitos, que por sinal so os meus preferidos, que acabei quebrando as regras da boa educao.
	Ora, David...  Ela interrompeu-se.  Posso cham-lo de David, no  mesmo?
	Claro, senhora.
	Gladys  ela o corrigiu.
	Certo... Gladys.
	Pois bem, assim est melhor. O tratamento formal no  necessrio entre pessoas... Como ns.
	O que quer dizer com isso?  David indagou, sem entender.
	Quero dizer que estou a par do que acontece entre um certo policial e uma certa violinista... Ambos so pessoas a quem admiro e estimo por demais. Por isso gostaria de ajudar.
David, que tinha acabado de se servir de uma xcara de ch, recostou-se na cadeira e fitou com firmeza a mulher a sua frente, antes de dizer:
	Eu tambm a admiro muito, Gladys. Mas peo-lhe que seja discreta sobre o que percebeu. Voc deve saber que o problema que existe entre minha famlia e a de Harmony  bastante grave. Qualquer comentrio que chegasse at os Shepard, ou os Martin, poderia ser catastrfico tanto para mim quanto para Harmony.
	Voc pensa que sou do tipo fofoqueiro, David?
	De modo algum. Mas por favor seja cautelosa ao falar sobre esse assunto... Para que ele no nos cause ainda mais problemas.
	Ora, no me tome por uma velha senil. Eu no apenas conheo a histria da tragdia que jogou os Martin contra os Shepard, como passei por uma situao parecida, ao me casar com meu Gerard... Que Deus o tenha.  Com um sorriso maroto, confidenciou:  Meu pai roubou a noiva do pai de Gerard. E os dois passaram anos a fio se odiando.
Contagiado pela vivacidade da velha senhora, David indagou, curioso:
	E voc e Gerard sabiam desse fato?
	A princpio, no. Ns nos conhecemos em outra cidade, num baile de formatura. Apaixonamo-nos praticamente  primeira vista e s depois fomos descobrir que vnhamos da mesma cidade.
	E ento, o que aconteceu?  David perguntou, levando a xcara aos lbios.
Gladys Silverman serviu-se de ch e mordiscou um biscoito. Ficou pensativa por alguns instantes e s ento continuou:
	No vero seguinte, combinamos de ir juntos a Redhills, nossa cidade Natal. Chegamos  casa de meus pais, abraados e sorridentes como convm a jovens apaixonados. Durante o almoo, o meu pai, que tinha gostado muito de Gerard, perguntou-lhe a que famlia pertencia. Gerard respondeu... E provocou um verdadeiro desastre. Meu pai o expulsou de casa, eu tentei defend-lo, minha me comeou a chorar... Foi uma loucura.
	E quanto aos pais dele?
	Reagiram da mesma forma, talvez pior...  Gladys Silverman meneou a cabea, como se revivesse aqueles momentos, pertencentes a um passado remoto.  Bem, para resumir, Gerard teve de optar entre ser deserdado ou casar-se comigo.  Ela franziu o cenho, com uma expresso severa.  As pessoas acumulam tanta raiva, tanto orgulho intil ao longo do tempo... Quando seria to mais fcil compreender!
	O final da histria foi feliz?  David indagou, com um suspiro.
A velha senhora sorriu, com uma expresso sbia.
	A felicidade, meu caro rapaz, no  algo que se conquista ou se guarda. Ela  feita de sutilezas impalpveis, tais como o perfume de uma flor, um gesto delicado, uma sensao indescritvel, um olhar cheio de significados. Nada disso se pode capturar, ou tentar reter.  Mudando de assunto, indagou:  Diga-me, David, o que voc pretende fazer na sexta-feira  noite?
A pergunta o surpreendeu:
	Como? Ah, sim, estarei de planto.
	Durante a noite inteira?
	No; s at s nove horas. Por que pergunta, Gladys?
	Porque gostaria de convid-lo para jantar. Modstia  parte, sei preparar pratos capazes de derreter um corao de pedra...  ela respondeu, num tom humorado.
David relutou:
	No sei se poderei...
Ora, no seja tmido  Gladys Silverman o interrompeu.
 Venha e no se arrepender.  Com um sorriso misterioso, comentou:  Alm do mais, as pessoas mais velhas sabem coisas que as jovens nem suspeitam que existem.
	Voc est falando por enigmas  David protestou, inquieto.
	Pode ser...  Gladys Silverman concordou, marota.  Mas, se quiser mesmo saber do que se trata, venha na sexta, s nove e meia... No antes.
	Verei o que posso fazer  ele prometeu.  Agradeo muito o convite, Gladys.
	Espero que tambm o aceite.  Num tom srio, sentenciou:	David, voc no precisa realmente se preocupar comigo. Tenho l minhas excentricidades, mas sei ser discreta e respeitar o sentimento das pessoas. Considere-me como uma aliada sua... E de Harmony.
	Obrigado.  E os lbios de David entreabriram-se num sorriso. Ele e Harmony no estavam sozinhos em sua luta, afinal.
Podiam contar com o apoio de um anjo em forma de gente chamado Gladys Silverman.
Minutos depois ele se despedia da mulher que, alm de respeitar, agora considerava como uma grande amiga.
Na sexta-feira, s sete horas da noite, pontualmente, Harmony estacionou seu carro em frente ao Thesouros de Segunda Mo, cujas portas j estavam fechadas.
Os gmeos saltaram do veculo, alegres e excitados. Ela desceu e trancou as portas.
	Ento, est tudo combinado, no  mesmo, Brandon?  Harmony fitou o irmo com severidade.  Voc vai se comportar muito bem, certo?
	Claro, mana  o garoto concordou, impaciente.  Fique tranquila.
	Otimo  Harmony assentiu e olhou para Christopher:  E quanto a voc, rapazinho? Tambm promete que...
	Eu me comportarei como um anjo  o menino completou. 	Voc est preocupada demais, mana.
	Isso j  implicncia  Brandon secundou.
	Implicncia?  Harmony repetiu, muito sria.  O que vocs me dizem do que aprontaram na festa de casamento dos Miller...?
	L vem voc com essa histria de novo...  Christopher protestou.  J explicamos mil vezes que aquilo que fizemos no foi exatamente uma travessura, mas sim uma aposta.
	Isso no justifica o comportamento lamentvel de vocs, que pareciam uns selvagens.
	Christopher conseguiu tomar seis copos de suco.  Brandon ria, com a lembrana do fato.  A barriga dele parecia um tambor. Eu, parei no quarto copo e perdi a aposta.
		Fez muito bem  Christopher comentou, no mesmo tom. 	Pois eu, o vencedor, passei mal a noite inteira.
	E fala como se isso fosse muito bonito  Harmony o repreendeu.
	Foi terrvel, mana, pode apostar  Christopher afirmou, muito srio.  Sossegue, Harmony. Naquele tempo ns ramos crianas... Agora j somos quase homens.
Harmony no pde deixar de sorrir, diante daquelas palavras. 	Homens!  exclamou, tomada de ternura pelos irmos.  Ainda vai levar muito tempo para se tornarem adultos, meus queridos.
A festa de casamento dos Miller ocorrera no comeo do ano... H cerca de dez meses. Mas para os gmeos esse tempo certamente representava uma eternidade, Harmony pensou, antes de dizer:
	Est bem, todos merecem uma nova oportunidade. Mas fiquem sabendo que se aprontarem alguma faanha durante o jantar com a sra. Silverman, nunca mais sairo comigo. E tero de arranjar outra pessoa para lev-los ao clube de esqui, neste inverno.
Os meninos entreolharam-se, preocupados. E Harmony concluiu que havia acertado o alvo... A ameaa de no irem esquiar era mais forte do que qualquer reprimenda.
"Teremos um jantar tranquilo nesta noite", ela concluiu, enquanto atravessava a rua, seguida pelos irmos.
Mais do que simplesmente tranquilo, o jantar foi adorvel. Era nisso que Harmony pensava, uma hora mais tarde. Os gmeos portavam-se como autnticos minicavalheiros. E deliciavam-se com as surpresas gastronmicas que Gladys Silverman havia lhes preparado com tanto carinho. A conversa ao redor da mesa era animada e divertida.
Aps a sobremesa, Gladys Silverman convidou os meninos a conhecerem a loja. E foi maravilhoso v-los em meio s peas e roupas antigas, encantados com tantas novidades que compunham o estoque do Thesouros de Segunda Mo.
Usando as roupas e objetos como material de cena, os meninos improvisaram uma pea de teatro. Gladys Silverman e Harmony entraram na brincadeira e, assim, todos passaram momentos muito agradveis.
Um grande relgio de carrilho do incio do sculo, que funcionava corretamente, indicou nove horas. E Harmony, pesarosa, teve de interromper a brincadeira.
	 hora de irmos para casa, garotos. Prometi a mame que estaramos de volta nesse horrio.  Dirigindo-se a velha senhora, acrescentou:  Nem sei como agradec-la por esta noite inesquecvel, sra. Silverman.
	Que tal chamar-me simplesmente de Gladys, querida?
	Est bem... Gladys  Harmony assentiu, sorrindo.  Obrigada por tudo. Fazia muito tempo que eu no me divertia assim.
	Fique mais um pouco  a velha senhora convidou.  Preciso conversar com voc sobre alguns assuntos.  E frisou bem as ltimas palavras.
	Gostaria imensamente, mas os meninos...
	Isso no  problema  Gladys Silverman a interrompeu.  Vamos fazer o seguinte: eu levarei os meninos para casa, enquanto voc arruma a cozinha. Quando eu voltar, conversaremos um pouco, tomaremos um caf e depois voc partir. Que tal?
Harmony hesitou:
	Eu... No sei...
	Posso mostrar o caminho para a sra. Silverman  Brandon se disps.
	Eu tambm!  Christopher afirmou, entusiasmado.
	Ento, vamos  Gladys Silverman decidiu, encerrando o assunto.  A propsito, Harmony, ser que eu poderia usar o seu carro? Minha caminhonete est com problemas no motor de arranque.
	Claro.  Um tanto confusa, Harmony retirou as chaves do bolso do casaco e ofereceu-as  velha senhora.
	Vamos, meninos  Gladys enlaou os gmeos pelos ombros e saiu em seguida.
Harmony meneou a cabea. No tinha entendido a atitude precipitada da velha senhora. "Talvez ela tenha algum assunto realmente srio a tratar comigo", pensou, recolocando no lugar os objetos usados durante a improvisao teatral feita pelos meninos. Em seguida subiu para o andar de cima e, tirando o casaco, arregaou as mangas do suter e comeou a lavar a loua utilizada no jantar.
Ainda havia meia garrafa de vinho sobre a mesa e Harmony serviu-se de um copo. Mas s foi sabore-lo depois de arrumar a cozinha. Levando o copo, caminhou at a sala de estar, mobiliada com peas antigas de mogno. Apagou a luz de centro e acendeu um abajur de vidros coloridos, colocado a um canto. A iluminao tnue era bem mais agradvel, Harmony constatou, sentando-se num sof de couro.
Lanando um olhar  estante que ocupava uma parede inteira, ela observou os muitos livros e revistas enfileirados. Depositou o copo de vinho sobre a mesinha de centro, ergueu-se, escolheu um volume e voltou ao sof. Era uma obra de Ernest Hemingway, intitulada Por quem os sinos dobram. Harmony entregou-se  leitura, bebe-ricando vez por outra o vinho, que estava na temperatura exata. Pouco depois ouviu a porta se abrir, no vestbulo do andar trreo. Erguendo-se, ela preparou-se para receber Gladys Silverman. Mas para sua extrema surpresa deparou com David Shepard. Ele usava o uniforme da corporao e trazia o quepe nas mos.
	David!  murmurou, atnita.
	Voc!  ele exclamou, no mesmo tom.
Ambos se olharam, emocionados e surpresos. Mal podiam acreditar no que viam.

CAPITULO IX

David e Harmony permaneceram em silncio por um longo momento, tomados por um misto de confuso e alegria.
Por fim ele perguntou:
	O que aconteceu? Onde est Gladys?
	Ela foi levar meus irmos caulas at em casa. Jantamos juntos esta noite, aqui. E voc, o que veio fazer?
	Jantar, tambm  David respondeu, ainda no de todo refeito da surpresa.  Ela me fez o convite h dois dias. Tenho certeza de que era para hoje, s nove e meia  acrescentou, consultando o relgio de pulso e depositando o quepe sobre a mesinha de centro.
	Gladys deve ter se equivocado  Harmony comentou, pensativa.  A menos que pretendesse oferecer dois jantares seguidos...
	E possvel.  As palavras da velha senhora vieram  mente de David: "As pessoas mais velhas sabem coisas que as jovens nem suspeitam que existem." Ser que o equvoco de Gladys tinha sido proposital?, perguntou-se, antes de dizer:  Bem, creio que ela mesma poder esclarecer esse mistrio... S no entendi porque Gladys foi levar os gmeos e voc ficou.
	Ela falou que queria conversar comigo em particular  Harmony esclareceu. Um tanto embaraada, convidou:  Sente-se, David. Vamos esperar por Gladys.
Ele sorriu, satisfeito, acomodando-se numa poltrona ao lado do sof. No estava entendendo nada daquela situao, mas adorava a oportunidade de ficar a ss com Harmony, num local fechado e aconchegante, longe de olhares curiosos... A tortura maior era no poder tom-la nos braos e beijar-lhe os lbios macios, frescos e perfumados como uma flor. 
Harmony ergueu-se para recolocar o livro de Ernest Hemingway na prateleira. Os cabelos loiros, anelados e longos, compunham a moldura perfeita para o rosto delicado, onde os olhos castanhos brilhavam de excitao e embarao. A luz suave do abajur, ela parecia mais bela e desejvel do que nunca, David constatou, lutando para no ceder ao impulso de abra-la.
Uma emoo idntica dominava Harmony, que sentia o corao pulsar descompassado, a ponto de sufoc-la. Era preciso dizer alguma coisa, ou fazer alguma ao para preencher o silncio que novamente caa sobre ambos, ela pensou, aflita.
	Estou tomando um copo de vinho  disse, imprimindo  voz o tom mais natural possvel.  Voc gostaria de me acompanhar, ou prefere uma bebida mais forte?
	Bem, como voc j sabe, eu tinha sido convidado para jantar... Portanto, acho que prefiro um drinque.
	Qual?
	Scotch com gelo, se tiver.
	Vou verificar.  Harmony dirigiu-se  cozinha e voltou pouco depois, trazendo o drinque e um sorriso luminoso no rosto.
	Acho que descobri o mistrio  anunciou, oferecendo o copo a David.  Veja s o que encontrei preso ao forno microondas.
 E estendeu-lhe um bilhete, escrito em papel verg verde, numa caligrafia elegante.  Curioso  que no tinha reparado nisso, enquanto arrumava a cozinha...
David pegou o papel, leu o recado e depois sorriu:
	Antigamente, chamariam Gladys Silverman de alcoviteira. Mas prefiro consider-la como um doce anjo-da-guarda.  E releu, em voz alta:  "Querida Harmony, esqueci-me de que convidei David Shepard para jantar. Se ele aparecer antes de minha volta, avise-o que a lasanha est no forno e, o vinho, na geladeira. Ah, e no o deixe sentir-se muito s... Um beijo, Gladys."
	Ela no deveria ter feito isso  Harmony murmurou, baixando os olhos.
Colocando o copo de scotch no brao da poltrona, David ergueu-se:
	Harmony...
Num movimento rpido, ela tentou voltar  cozinha. Mas David a deteve, atraindo-a para si. Seus lbios buscaram os de Harmony com uma nsia febril. No havia mesmo como ignorar aquela onda de puro desejo, ternura e emoo que acabou dominando a ambos.
O fato de estarem a ss naquele apartamento, sob uma iluminao tnue, longe dos rudos da cidade e dos problemas familiares... Era maravilhoso.
Obedecendo a uma voz que era mais forte do que ela prpria, Harmony pressionou o corpo contra o de David, buscando um con-tato maior. Ele suspirou profundamente, deixando que as mos caminhassem pelo corpo da mulher que tanto amava, tocando-lhe as curvas suaves, descobrindo detalhes preciosos.
O tempo voltava a perder o significado. Os coraes pulsavam acelerados, movidos por uma chama que j nada poderia apagar. Livrar-se da jaqueta incmoda foi muito fcil para David... Difcil era fazer com que a mo trmula de Harmony pousasse sobre seu peito, tocando a penugem macia e negra que recobria os msculos, numa carcia ousada que pedia outra... E mais outra.
Trmulos de emoo, ambos se despiram lentamente, entre beijos sfregos, exclamaes de prazer e delcia diante da perspectiva da revelao do corpo amado, que mereceria as mais belas homenagens. Era preciso extrair o mximo de emoo daquele momento nico, que aos poucos conduzia ao to de comunho perfeita.
Em meio a murmrios de amor e medo, foram se ajoelhando no tapete macio, atirando as roupas ao acaso sobre o sof... At que a nudez total ficasse oculta apenas pelas peas ntimas, minsculas e delicadas, que excitavam ainda mais e exigiam a consumao do desejo.
Livrando os seios de Harmony do suti, David conteve a respirao ao ver aquelas duas jias muito alvas, de bicos rosados, enrijecerem ao toque de seus dedos. Os lbios substituram as mos, numa carcia longa, que era a um s tempo deliciosa e torturante.
Harmony gemeu de prazer e retesou o corpo, oferecendo-o, consumida por uma chama intensa... A chama infinita da paixo.
A virilidade de David se manifestava, faminta, vibrando contra as coxas de Harmony. E aquela tenso tinha de ser apaziguada, aquele fogo precisava ser alimentado pela fora do corpo da mulher amada, para chegar  consumao final que o amor exigia, de modo irredutvel.
Deixando que a mo deslizasse pelo ventre de Harmony, David ajudou-a a livrar-se da ltima pea, minscula e rsea, que ocultava-lhe o ponto recoberto por uma penugem dourada, onde ningum jamais havia tocado.
Como um desbravador delicado e possessivo, David agora poderia enfim possuir a mulher dos seus sonhos. Com movimentos inspirados unicamente pela fora do amor, ele tocou a umidade morna, num gesto delicado e urgente.
Querendo retribuir o amor que recebia, Harmony cedeu de vez  voz interior que a comandava. Tateando, encontrou a fonte de toda a virilidade do homem que a conduzia em direo ao paraso.
Tudo comeava a transcorrer num tempo fora do tempo, num territrio mgico, onde se realizava a mais doce coreografia. Beijos, palavras doces, promessas apenas sussurradas... Tudo conduzia ao passo definitivo, irreversvel, de onde nunca mais poderiam voltar.
Cobrindo o corpo de Harmony com o seu, David afastou o rosto para fit-la no fundo dos olhos e perguntar suavemente:
	Voc tem certeza...?
	No  ela confessou. O que significava a palavra certeza, naquele plano elevado onde agora se encontravam? Nada... Harmony concluiu, antes de pedir:  Por favor, seja delicado comigo.
No era preciso dizer mais nada, naquela hora em que os corpos e coraes sabiam exatamente o que queriam e para que tinham nascido...
Os lbios secretos de Harmony se abriram ao contato pulsante do homem que avanava devagar, retrocedia e voltava, indo cada vez mais longe e mais perto, como as ondas do mar fluindo e refluindo.
A natureza exigia que David transpusesse aquele obstculo fino e transparente, que resistia levemente  penetrao. Sua boca recebeu em cheio o pequeno grito de dor e susto que Harmony proferiu, quase em pnico, enquanto um claro alaranjado explodia-lhe na mente. Durou apenas um segundo... Para mudar radicalmente, no momento seguinte. Uma chama ainda maior acendeu-se no ntimo de Harmony, que agora abraava David com fora, indiferente s lgrimas que escorriam-lhe pelo rosto... Lgrimas que tinham sido de medo e sofrimento a princpio, mas que agora s traduziam o desejo de continuar assim, indefinidamente. O lquido quente de David espalhou-se dentro do corpo de Harmony, inundando-a de uma fora indescritvel, elevando-a a um plano mais alto e to intenso, que ela julgou que perderia os sentidos.
Com um grito abafado Harmony penetrou num campo ainda mais vasto de prazer, que tornava-se mais amplo a cada segundo. Descargas eltricas percorriam-lhe o corpo, fazendo-a estremecer. E Harmony movimentava-se, cada vez mais rpido, buscando o que nem ela mesma poderia explicar. S sabia que tinha de continuar assim, sempre, por toda a eternidade se preciso fosse, at alcanar... Mas alcanar o qu? Ela se perguntaria, se pudesse raciocinar.
Pela segunda vez o corpo de David se enrijeceu por completo. Mas agora ele no estava s... Podia compartilhar com Harmony aquela sensao que somente alguns poucos poetas tinham conseguido traduzir em palavras.
E entre lgrimas e suspiros, Harmony conheceu o gozo que jamais imaginara existir. Depois, tudo se transformou numa sensao de paz absoluta.
Abraados, sonolentos, fascinados com aquela noite mgica, os amantes permaneceram em silncio. Harmony vagamente pensava que agora conhecia o significado de uma palavra misteriosa: felicidade... E que ele era muito diferente do que sempre imaginara.
A voz de David soou-lhe junto ao ouvido, como a mais bela das melodias. E Harlnony levou alguns instantes para decifrar as palavras:
	Quero me casar com voc, Harmony. E no vou esperar mais. Na verdade, no posso... Pois no saberia viver sem esse amor que acabamos de confirmar.  E aps uma pausa, a pergunta:  Voc quer?
	Sim  ela respondeu, sem pensar.
	Vamos nos casar no dia de Natal... O que acha?
	Otimo. : Ela sorriu.  Assim, voc nunca correr o risco de esquecer a data de aniversrio do nosso casamento...
Ambos se beijaram com ternura, num feliz reconhecimento. Tudo estava bem, tudo daria certo. O futuro acenava-lhes com promessas da mais pura felicidade. Ao menos foi isso que pareceu a Harmony, antes que ela despertasse para a realidade.
	David  disse, num sobressalto.  Precisamos arrumar esta sala, antes que Gladys volte.
	 mesmo  ele concordou, levando a mo  testa.  Eu havia me esquecido...
Vestiram-se devagar, com uma certa tristeza por no terem podido ceder ao sono que lhes faria to bem, depois do ato de amor. Harmony afastou-se em direo ao toalete e, vinte minutos depois, retornava, com os cabelos penteados e vestida como antes. Apenas, nos olhos castanhos, havia um profundidade maior, uma luz diferente que jamais tinham possudo antes.
David j havia terminado de arrumar a sala e estava sentado no sof, com o copo de scotch nas mos. Parecia extremamente jovem, com os olhos cor de safira brilhantes, as faces coradas e uma expresso de plenitude no rosto perfeito.
Ambos sorriram um para o outro, sem necessidade alguma de palavras que traduzissem o que sentiam. Sabiam muito bem a grandeza e profundidade do que havia acontecido... E o silncio era a melhor maneira de expressar a emoo que ainda os dominava.
Teriam permanecido assim, por muito tempo, se no fosse pelo rudo da porta de entrada que se abria, no andar trreo. No instante seguinte a voz de Gladys Silverman soava, vinda do p da escada:
	Al, meninos... Estou chegando.
Para a surpresa de ambos, a velha senhora no subiu ao apartamento. Agora podiam ouvir seus movimentos l embaixo, na loja, juntamente com sua voz que cantarolava uma msica natalina.
	Gladys... Nossa querida Gladys  disse David, com um sorriso comovido.  Ela no subir enquanto no a chamarmos.
	Acho melhor descermos  Harmony props.  J  to tarde e, para ser franca, eu me sentiria embaraada de conversar com Gladys, neste momento... Voc compreende?
David fitou-a com ternura. Claro que entendia o quanto Harmony ficaria constrangida, diante de Gladys Silverman, que no teria dificuldade alguma em perceber o que havia ocorrido.
Num gesto carinhoso, ele acariciou-lhe o rosto corado, antes de responder:
	Claro que compreendo, querida. Vamos descer, ento.
	S agora me lembro de que voc nem sequer jantou.
	E no entanto me sinto mais pleno e satisfeito do que nunca  ele retrucou, beijando-a nos lbios.
Minutos depois, ambos despediam-se de Gladys Silverman, que agia de modo to natural, que nem chegou a constrang-los:
	Os gmeos so um amor  comentou.  Resolvemos parar num parque e comer pipocas. Em seguida demos um passeio e ento eu os levei para casa. Expliquei a Olvia o motivo de nosso atraso e ela compreendeu.  Olhando de Harmony para David, acrescentou:  Perdoem-me se demorei demais.
Ambos sorriram e, inclinando-se, beijaram a face daquela bondosa amiga, num gesto de reconhecimento e carinho.
Mas David sentia necessidade de demonstrar, de maneira mais veemente, sua gratido. Por isso disse:
	Acho que minha noiva no discordar se eu convid-la para ser minha madrinha de casamento....  Voltando-se para Harmony, indagou:  No  mesmo, querida?
Emocionada demais para falar, Harmony corou enquanto assentia com um gesto de cabea.
	Ser uma honra para mim  Gldys afirmou, comovida.  Mas tenho uma condio...
	Qual?
	Quero convidar o capito Brodwisky para ser meu par. O que acham?
Harmony sorriu, em concordncia.
	E uma ideia maravilhosa  David aprovou.
	Ento, est combinado  disse Gladys.  E quando ser o casamento?
	No dia de Natal  David respondeu, orgulhoso.
	Perfeito... E muito original  Gladys opinou. 
	J  tarde, David  Harmony afirmou, num fio de voz.  Precisamos ir embora.
	Sim, vo com Deus  disse Gladys, entregando a Harmony as chaves do carro.  E cuidem-se com muito carinho. O amor que existe entre vocs me faz muito feliz. O mundo inteiro fica melhor, quando dois coraes se encontram.
Sem mais nada a dizer, ambos saram para a noite calma e fria. A viatura em que David viera estava estacionada do outro lado da rua, um pouco atrs do carro de Harmony.
	Ns nos veremos amanh?  ela perguntou.
	Sim.  Ele segurava-lhe a mo. Parecia impossvel dei x-la partir...
Fazendo um intenso esforo, Harmony desvencilhou-se de David e abriu o carro. Acomodou-se diante do volante e colocou a chave na ignio. David bateu com os ns dos dedos no vidro, que ela baixou devagar.
	O que foi?
Ele curvou-se e beijou-a longamente. Em seguida anunciou, num tom humorado que no ocultava a paixo que o dominava:
	Vou escoltar voc, milady, para que nada lhe acontea nessa noite mgica.
Harmony sorriu, em sinal de aquiescncia. Minutos depois ela dirigia pelas ruas de Appleton, desertas naquela hora avancada. David a seguia, feliz como um menino diante do mais belo presente de Natal.
Assim, os dois atravessaram a cidade calma, como se o mundo inteiro lhes pertencesse. Estavam felizes, serenos, donos do mais precioso dos bens.
Foi apenas ao se aproximar da rua onde morava que Harmony comeou a ficar preocupada. A realidade ameaava a magia da noite e era preciso muita sensatez, para no cair em suas armadilhas... Harmony pensava, estacionando o carro em frente a sua casa. Saltou rapidamente e, com um gesto enrgico, pediu a David que partisse.
Mas ele parecia disposto a contrariar o bom senso... Tanto que, muito calmamente, desceu da viatura e aproximou-se.
	Seu maluco!  Harmony o advertiu, com um misto de ternura e medo.  O que pensa que est fazendo?
	Quero um ltimo beijo, para que eu possa dormir em paz.
	Mas algum pode nos ver...  ela protestou, j fechando os olhos e entreabrindo os lbios para receber o beijo ardente de David. A magia estava vencendo a realidade, novamente. Mas isso no poderia ser perigoso? Harmony ainda se perguntou, antes de se entregar inteiramente quele contato maravilhoso. Afinal, seria apenas mais um beijo... Para que ambos dormissem tranquilos.
Naquele exato momento um furgo dobrou a esquina. Seus faris lanaram uma luz forte sobre David e Harmony, que se afastaram imediatamente.
Mas j era tarde. O furgo, que trazia o logotipo do Armazm Martin, parou logo atrs da viatura. E de seu interior desceu Rod, que avanou para ambos com uma expresso de fria.
	Meu Deus  Harmony exclamou, empalidecendo.
	Essa no  David murmurou, voltando-se para Rod com uma expresso calma, pronto para dar uma explicao.
No houve tempo. O soco o atingiu na boca. Rod estava to descontrolado, que calculou mal o golpe, acertando-o apenas superficialmente. Mesmo assim, um filete de sangue escorreu pelo queixo de David, que bem poderia reagir, mas no queria. Somente olhava, com tristeza, para o homem que era irmo da mulher que tanto amava.
	Rod!  Harmony gritou, horrorizada.  Como pde fazer isso?!
	Cale a boca e v para dentro!  Rod ordenou, o rosto transformado numa mscara de clera.  No sei o que est acontecendo aqui, mas este maldito Shepard vai ter o que merece.  E tornou a atacar.
David caiu na calada, sentindo que Rod estava ultrapassando os limites... Seus olhos doces e meigos tornaram-se frios e incisivos. A mo que ele havia levado aos lbios feridos desceu, rpida, desviando o soco direto que Rod agora desfechava-lhe contra o queixo.
	Rod, voc no sabe o que est fazendo  David afirmou, num tom alto e seco.  Eu e sua irm nos amamos...
As palavras s serviram para redobrar a raiva de Rod, que investiu como um louco.
Dessa vez David no podia apenas se esquivar. Era preciso tomar uma providncia. Agarrando o brao direito do agressor com ambas as mos, David no pde evitar o soco de esquerda que o acertou na fronte. Mas recuperou-se logo e, girando, o brao de Rod para trs, prendeu-o numa chave dolorosa, que o imobilizou.
	Voc quer me ouvir, seu louco?  ordenou, ofegante, mantendo-o bem seguro.  D-me ao menos a chance de me explicar.
	Solte-me  Rod ordenou entre os dentes.  No quero escutar nada de um Shepard desprezvel como voc.
Na rua silenciosa, diversas luzes se acenderam. A porta da casa dos Martin se abriu com violncia, dando passagem a vov Irena e Olvia, em seus trajes de dormir.
	Largue meu filho, maldito!  Olvia gritou, enquanto vov Irena se aproximava a passos largos, com um brilho de fria nos olhos.
Num brusco safano, David projetou Rod para a frente. Perdendo o equilbrio, este chocou-se com a av. O choque foi inevitvel, e vov Irena caiu na calada glida, numa queda dolorosa.
Momentaneamente aturdidos pela cena chocante, todos ficaram como que paralisados. Harmony foi a primeira a se recompor e, correndo para vov Irena, ajudou-a a levantar-se. Por cima dos ombros, implorou:
	Pelo amor de Deus, David, v embora daqui. Pelo amor de Deus...
Com uma expresso perplexa, a mo espalmada contra a boca, como a conter um grito, Olvia foi a nica a ver David se afastando, curvado, em direo  viatura que partiu em seguida.
Harmony sustentava vov Irena nos braos. Rod correu a auxili-la, ajudando-a a levar a velha senhora para dentro de casa.
No interior da viatura que se afastava, David sentia-se tomado pelo desespero.
 Est tudo perdido  dizia, contendo-se para no esmurrar o painel do veculo, num gesto de raiva impotente.  Estraguei tudo, meu Deus!  E acelerando violentamente, desapareceu na escurido da noite.

CAPITULO X

Pela manh, muito cedo, a porta da residncia dos Martin se abriu, dessa vez para dar passagem a Harmony. Carregando duas malas pesadas, ela acomodou-as no bagageiro do carro e em seguida voltou para dentro de casa. Pouco depois retornava, com uma grande bolsa de lona e uma valise de mo. Estava plida, com olheiras profundas. Movia-se devagar, como se carregasse um pesado fardo no peito. At mesmo o contato suave da fria brisa da manh parecia machuc-la, to frgil ela se encontrava.
Harmony entrou no carro e deu partida. Esperou alguns instantes, para que o motor aquecesse, enquanto seus olhos avermelhados de tanto chorar fixavam-se na porta fechada, como se esperassem um sinal... Um desfecho menos trgico para o que se seguiria em sua vida.
Apenas as cortinas da janela da sala se afastaram e ento Harmony pde ver, contra o vidro, os rostos queridos dos gmeos assustados e chorosos.
Ela partiu em direo  casa de Paula Russel, com quem havia conversado longamente, durante a madrugada, pelo telefone. A amiga a acolheria at que Harmony decidisse o que fazer.
Os primeiros carros e nibus trafegavam pelas ruas, levando trabalhadores dos bairros para o centro comercial da cidade.
As lgrimas afloraram aos olhos de Harmony, que enxugou-as com um gesto nervoso. J estava cansada de chorar, pois no fizera outra coisa durante a noite inteira.
Ao passar pela parquia do padre Bernard, Harmony brecou o carro e deu marcha-a-r, para estacionar no ptio. No sabia muito bem por que estava fazendo isso, mas de repente sentia uma incrvel necessidade de entrar naquele lugar calmo e aconchegante. Talvez assim conseguisse um pouco de paz para seu esprito atormentado.
O padre Bernard estava celebrando a primeira missa do dia e reconheceu Harmony com um pequeno sorriso, embora estranhasse sua presena ali, quela hora.
Sentada num banco longe do altar, Harmony sentia-se invadida por uma leve sensao de alento. Mas precisaria de muito mais, para acalmar seu corao povoado de angstia.
Quando a missa terminou, ela ergueu-se mas, em vez de sair, dirigiu-se  sacristia.
O padre Bernard recebeu-a com um largo sorriso, mas bastou-lhe um olhar mais atento para concluir que Harmony no estava nada bem.
	O que houve, filha?  perguntou, num tom que era a um s tempo apreenso e carinho.  Aconteceu alguma coisa grave?
	Preciso falar com o senhor  ela respondeu, com a voz sufocada.
	Sente-se.  O padre Bernard fechou a porta da sacristia.  Aqui, ningum nos incomodar. Desabafe suas mgoas, filha...
Cerca de quarenta minutos depois, Harmony deixava a parquia, sentindo-me melhor, mais forte e aliviada. Tinha encontrado, no velho proco, um amigo compreensivo e solidrio. Ele, juntamente com Gladys Silverman, Paula Russel e os gmeos, eram seus aliados na forte luta contra o rancor entre os Martin e She-pard. E Harmony j no se sentia to s.
E quanto a David? Ela se perguntava, aflita, enquanto caminhava at o carro. Certamente ele estaria enfrentando a fria de seus entes queridos. Pois era bvio que, quela altura dos acontecimentos, David teria contado  famlia que pretendia se casar com uma Martin.
As cartas estavam na mesa, Harmony pensou, entrando no carro. Nada mais poderia ser feito... Exceto seguir em frente. E era exatamente isso que ela pretendia. Mesmo porqu, no lhe restava outra opo.
Se Harmony houvesse se demorado mais cinco minutos no ptio da igreja, teria visto David se aproximar, dirigindo seu prprio carro e usando trajes civis, j que tinha ligado para a central e pedido para tirar uma folga, das muitas que acumulara ao longo do ano. Mas, naquele momento, Harmony j estava quase chegando ao apartamento que Paula ocupava, sozinha, perto do conservatrio musical da Appleton.
O padre Bernard recebeu David com uma expresso compreensiva:
Voc no costuma frequentar a igreja, policial Shepard... Mas sei que  um homem trabalhador, ntegro, que merece todo o meu respeito.
	Obrigado, padre  David assentiu, num tom respeitoso. Seu rosto msculo trazia sinais de tristeza e cansao. Um tanto embaraado, disse:  Preciso conversar com o senhor.
	Eu j sei do que se trata, filho  o padre afirmou, com um sorriso bondoso.
	Sabe?  David reagiu, surpreso.
	Sim. Na verdade, estou me sentindo um pouco o frei Lorenzo, da histria de Romeu e Julieta.
	Como assim?
	Ora, voc no conhece a obra de Shakespeare que fala sobre dois jovens que se amavam e que pertenciam a famlias rivais?
	Claro que sim, mas...
O padre Bernard no o deixou falar:
	Infelizmente o pobre frei Lorenzo, embora fosse um fiel aliado de Romeu e Julieta, no pde realizar o sonho de v-los juntos para sempre, felizes como s eles mereciam. Ele conseguiu promover a paz entre as duas famlias, mas quela altura Romeu e Julieta j estavam mortos. A histria se passou em Verona e serviu como um triste exemplo do quanto o orgulho desmedido pode causar tragdias...
David assentiu, um pouco impaciente. No estava nada disposto a ouvir o padre Bernard discorrer sobre a tragdia escrita por Shakespeare h tanto tempo. Precisava, isso sim, conversar longamente com o proco.
	Venha, filho.  Padre Bernard conduziu-o  sacristia. E apontando-lhe a cadeira onde Harmony tinha se sentado h pouco, finalizou sua explanao.  No queremos que a tragdia de Romeu e Julieta se repita, em nossa pacata Appleton.
David fitou-o com espanto, enquanto se sentava. Estava comeando a perceber o que o padre queria dizer.
	Vou ser breve e sucinto, filho, pois posso imaginar como est se sentindo.  Aps uma pausa, o velho proco anunciou:   Harmony esteve aqui e me contou sobre tudo o que aconteceu.
	Quando?  David indagou, arregalando os olhos azuis como safiras.
	Faz uns cinco minutos que ela saiu. Por pouco vocs no se encontraram.
	Droga  David resmungou.  Eu precisava tanto v-la!
	Talvez tenha sido melhor assim  o padre sentenciou, com um suspiro.  Vocs dois esto muito atormentados e precisam de tempo para se refazer.  Abrindo a gaveta de sua velha escrivaninha, ele pegou um caderno de capa dura e folheou-o. Ah, aqui est...
	O que  isso?  David perguntou, sem entender.
	O casamento de vocs  o padre explicou, simplesmente.  Est marcado para o dia de Natal, s onze horas da manh.
Harmony acha que Paula concordar em ser sua madrinha, mas ainda no sabe quem ser o padrinho. Quanto a voc...
	A sra. Gladys Silverman ser minha madrinha  David completou, tomado por uma sbita onda de alegria.  Mas preciso consultar o capito Brodwisky para saber se ele aceitar ser meu padrinho.
O padre riu:
	Vocs dois esto sem padrinhos... No  uma divertida coincidncia?
	No h nada de divertido nessa situao, padre  David retrucou, passando a mo pelos cabelos, num gesto de amargura e cansao.  Acabo de conversar com minha famlia e contar-lhes tudo.
	E como foi que reagiram?
	Da pior maneira possvel, como alis era de se esperar.
	E voc, o que pretende fazer?
	J fiz.  David suspirou.  Sai da casa de meus pais e estou a caminho do Hotel Vermont.
	Aquele que fica no caminho para Redhills?

	Isso mesmo. Tirei o dia de hoje de folga, mas amanh irei  corporao para pedir um afastamento mais prolongado.
	Certo...  o padre Bernard assentiu, pensativo.
	E quanto a Harmony?  David perguntou, ansioso.  Onde ela est? E como est?
	Calma.  O padre sorriu.  Uma pergunta de cada vez. Ela est muito triste, como voc, mas confiante no futuro...
	Como eu  David afirmou, emocionado.
	Exato. Ela foi para a casa de Paula Russel.
	Mas Paula  namorada de Rod!  David exclamou, aflito.
	 tambm a melhor amiga de Harmony. E tenho certeza de que cuidar dela muito bem.
	Certo  David aquiesceu, ainda com ar de dvida. Em seguida acrescentou:  Preciso ver Harmony. O senhor poderia me dar o endereo...
Antes que David conclusse a frase, o padre retirou uma carta de dentro do caderno:
	Tome.  E saiu, deixando-o sozinho na sacristia.
Querido David... Dizia a carta de Harmony.
O bondoso padre Bernard prometeu-me que daria um jeito de entregar-lhe este recado. Estou arrasada emocionalmente, mas continuo confiante no nosso amor. E uma pena que tenhamos de magoar nossas famlias, para trilharmos o caminho que a vida nos colocou, unindo nossos destinos de maneira irreversvel. Mas no vejo outra sada.
Estarei na casa de minha amiga Paula e continuarei trabalhando no conservatrio. Porm peo-lhe que no me procure, at o dia de nosso casamento. Preciso de um pouco de solido para colocar os pensamentos em ordem. No quero que voc me veja desse jeito, angustiada e trmula... Nu'o  assim que quero ser para voc, David. Desejo que voc me enxergue como uma pessoa forte, digna da honra de ser sua esposa e companheira.
Portanto, peo que respeite minha vontade. O padre Bernard j marcou o nosso casamento para o dia de Natal, s onze horas. Basta que voc concorde e, ento, daremos incio a uma nova vida, que j adivinho plena de felicidade. Mas, sinto dizer, essa felicidade ser sempre turvada pela mgoa que causamos nos nossos familiares, embora eles mesmos no nos tenham dado outra opo. At o dia de Natal, David... Do nosso Natal. Um beijo da sempre sua Harmony.
O padre Bernard preparou um sermo especial para a missa do domingo seguinte, a exatamente uma semana do Natal. Mas, embora ele se dirigisse a todos os fiis, seus olhos fixavam-se constantemente nos Martin, que como sempre ocupavam um banco prximo ao altar.
A tristeza estampada no rosto da famlia era de causar pena. A cidade j comentava o escndalo ocorrido na noite de sexta-feira, que acabara numa briga entre Rod e David Shepard. Mais uma vez, as duas famlias eram o centro de ateno da cidade... E de uma forma lamentvel.
 O Natal se aproxima  dizia o padre Bernard, com sua voz empostada.  Esta  a melhor poca do ano para fazermos um exame de conscincia e abrir mo das tolices que s vezes consideramos como sagrados pontos de vista. Hoje eu gostaria de falar sobre algo terrvel que se chama... Orgulho. Em nome desse baixo e triste sentimento, somos capazes de cometer muitos erros. Pois o orgulho pode ser confundido com outros sentimentos bem mais nobres, tais como a dignidade e a fora de carter. Seria bom atentarmos para isso, no concordam? s vezes temos uma opinio ferrenha sobre algo ou algum... Uma opinio que no queremos mudar. A questo  a seguinte: no queremos mud-la por que temos certeza dela, ou porque estamos sendo movidos pelo orgulho? Boa pergunta... E gostaria que pensassem na resposta, enquanto lhes conto uma histria interessante. Alis, muitos devem conhec-la...
A perplexidade corria entre os fiis, enquanto o padre Bernard discorria, rapidamente, sobre a tragdia que havia acontecido doze anos antes, envolvendo as famlias Martin e Shepard.
	Aonde ele pretende chegar com isso?  Olvia perguntou baixinho a vov Irena, pressionando-lhe a mo.
	Ele certamente vai condenar a atitude de Harmony, por ter fugido de casa para se unir a um homem que  nosso inimigo mortal  a velha senhora respondeu, no mesmo tom. Estava aba tida e havia emagrecido visivelmente.
Mas vov Irena estava enganada. O ponto ao qual o padre Bernard chegou, no final do sermo, era exatamente o oposto...
	Durante muito tempo, ambas as famlias se odiaram. Os Shepard nem sequer frequentam a nossa parquia. Preferem ir  igreja de um bairro bem mais distante, apenas para no se encontrarem com os Martin, que sempre nos honram com sua presena.
	Eu no falei?  vov Irena cochichou para a filha. A seu lado estava Rod, muito rgido e tenso, com uma expresso severa no rosto.
No banco de trs, os gmeos tambm pareciam nervosos e tristes. O clima pesado dos ltimos dias os havia abatido.
	Mas a vida tem l seus caprichos  o padre Bernard continuava.  E assim aconteceu que dois membros dessas famlias rivais se apaixonaram.
Um murmrio de espanto correu entre os fiis.
	O padre Bernard no tem o direito de falar em pblico sobre os nossos problemas  Rod protestou, entre os dentes.
	E ento, a reao de ambas as famlias foi terrvel  o padre prosseguiu, depois de pedir silncio.  Vocs devem conhecer uma obra de Shakespeare, chamada Romeu e Julieta... Romeu Montecchio e Julieta Capuletto pertenciam a famlias inimigas, tais como os Martin e os Shepard. A histria se passava em Verona e terminou com a morte dos dois amantes, que s queriam lutar pelo direito de serem felizes e construir uma vida juntos. Hoje, estamos no sculo XX, s vsperas do ano 2000. Moramos numa cidade pacata e certamente lutaremos, todos, para que a histria de David Shepard e Harmony Martin tenha um fmal feliz. E sabem como poderemos fazer isso? Desejando, do fundo de nosso corao, que as famlias de ambos deixem o dio de lado e enxerguem a situao sob um novo ngulo... Um ngulo muito mais belo, por sinal, pois estamos falando do amor entre um homem e uma mulher. E somente a fora desse amor poder vencer as hostilidades que se arrastam h doze anos entre essas famlias de gente de bem, que s precisam de um pouco de luz. Vamos fazer, agora, um voto para que os Martin e os Shepard voltem a ser amigos como antes. Para que compreendam o amor de seus filhos e o aceitem como uma bno, no como uma desgraa.
A reao foi imediata nos Martin, que levantaram-se e saram, num claro sinal de protesto s palavras do padre Bernard. Apenas os gmeos pediram para ficar, mas Rod tomou-os pelo brao e os conduziu  sada.
	E a ltima vez que piso nesta igreja  algum o ouviu murmurar, num tom velado.
O padre Bernard acompanhou o movimento com um olhar pesaroso. Teria de tomar providncias mais srias para abrir os olhos e o corao daquela gente. Mas, antes, precisava concluir a missa.
No almoo daquele domingo, o ltimo antes do Natal, o clima na casa dos Martin parecia ainda mais pesado.
	Vocs no acham que o padre Bernard tem razo?  Brandon ousou dizer.
	Cale a boca e coma  Rod ordenou, rspido.
	Ele  padre, ora...  Christopher protestou.  E com certeza sabe muito mais do que ns sobre...
	Eu no quero ouvir mais nenhuma palavra a esse respeito 	vov Irena interveio, autoritria. Ia dizer algo mais, quando o soluo de Olvia a fez interromper-se.  O que foi?
	Ora, o que foi!  Olvia repetiu, com os olhos rasos de lgrimas. 	Estou arrasada, desesperada com tudo o que houve. E gostaria de encontrar uma sada, um jeito de acabar com tanto sofrimento. Talvez o que o padre Bernard falou tenha algum sentido, afinal.
	Mame!  Rod censurou-a, chocado.  Voc no est que rendo dizer que acreditou naquele sermo absurdo!
	No seja rude com ela  vov Irena interveio.
	Eu tambm no gosto de sofrer, mame  disse Brandon, com voz chorosa.  E sinto muito a falta de Harmony. Queria que ela estivesse aqui conosco...
	Por que no fazemos as pazes com Harmony?  Christopher apoiava o irmo.
-  isso mesmo.  Brandon hesitou, antes de concluir:  E se ela gosta de David Shepard, por que no podemos gostar dele tambm
	Porque nosso pai foi morto pelo tio de David  Rod sentenciou, a voz trmula de revolta.  E vocs dois esto cansados de saber disso.
	Mas essa histria triste aconteceu h muito tempo  Christopher choramingou.  E nada do que fizermos agora vai trazer papai de volta.
O silncio voltou a cair entre os Martin. Dessa vez, nenhum dos adultos se atreveu a repreender os garotos. De algum modo sabiam, embora no quisessem reconhecer, que os caulas da famlia tinham certa razo.
O som da campainha causou um estremecimento em Olvia, que afastando uma mecha de cabelos do rosto, ergueu-se para atender.
Oh, Deus, que pssima hora para receber visitas.
Ser Harmony?  perguntou Brandon, com um olhar esperanoso.
Mas estava enganado. Era o padre Bernard quem chegava e, num tom respeitoso, anunciava:
	Preciso conversar com voc, Olvia Martin. Com todos vocs...
	O senhor nos ofendeu, padre  disse Rod, aproximando-se da porta, por trs da me.
	No era minha inteno. E  isso que quero esclarecer, entre outras coisas. E ento...? No me convidam para entrar?
Olvia deu-lhe passagem, com uma expresso de desconfiana que o padre Bernard pareceu no notar.
Cerca de uma hora depois, ele deixava a casa dos Martin e caminhava at a avenida, a cerca de trs quadras de distncia. Ali pretendia tomar um txi at a casa dos Shepard, onde teria uma conversa bem parecida com a que acabara de levar com os Martin. Depois, entregaria tudo nas mos de Deus. Sua parte estaria feita.

CAPITULO XI

Eram dez e quinze da manh quando David entrou I na igreja. Sobre o smoking, ele usava um grosso sobretudo de l que lhe caa at os joelhos. O sistema de aquecimento do ambiente era perfeito e David tirou o casaco, deixando-o sobre um banco prximo ao altar.
Sentia-se ansioso e consultava o relgio a todo momento. Tal como Harmony lhe pedira, na carta que deixara com o padre Ber-nard, ele no mais a tinha procurado. E uma pergunta atormentava-lhe a mente: ser que Harmony viria? E se ela se arrependesse no ltimo momento? E se...
Com um meneio de cabea, David interrompeu o fluxo de pensamentos. J tinha sofrido demais, nos ltimos dias. Aquele no era o momento de acalentar angstias... Era o dia de seu casamento com a mulher que tanto amava. Mas essa ocasio, que deveria ser a mais feliz de sua vida, estava turvada pela tristeza.
David suspirou, passando a mo pelos cabelos negros, num gesto de cansao. Havia lutado pelo seu amor e, para tanto, fora preciso colocar-se contra seus entes queridos. Mas, enfim, no tivera outra opo.
A porta da igreja se abriu, dando passagem a Gladys Silverman, muito elegante num tailleur azul-escuro, acompanhada pelo capito Brodwisky que usava um terno preto.
Ambos caminharam, de braos dados, em direo a David, que sorrindo comentou:
	Vocs chegaram cedo.
	O privilgio de atrasar-se, nessas ocasies, compete unicamente  noiva  a velha senhora retrucou, bem-humorada, depois de beij-lo em ambas as faces.
	E ento, policial Shepard?  disse o capito Brodwisky, apertando-lhe a mo num cumprimento cordial.  Sente-se feliz?
		Sim  David respondeu.  Na medida do possvel...
O capito assentiu com ar compreensivo. Tal como todos em Appleton, ele sabia da comoo que David e Harmony haviam provocado entre as famlias, com seu amor.
O padre Bernard saiu da sacristia e dirigiu-se ao grupo. Parecia muito bem-disposto naquela manh, em sua batina branca com paramentos dourados.
	E ento, pessoal? Todos prontos para a cerimnia?  Antes que pudessem responder, ele acrescentou:  Bem, ainda temos tempo de sobra,at l. Por que no me acompanham num caf?
	Agradeo, mas vou recusar  disse David, num tom polido.
Gladys e o capito aceitaram o convite. Afastaram-se com o padre em direo  sacristia, deixando David sozinho, caminhando . de um lado a outro do altar.
A igreja tinha sido decorada com rosas brancas e amarelas, dispostas em belos arranjos. Um tapete verde-musgo cobria a nave central, contrastando com o piso de mrmore. Era por ali que Harmony deveria passar... Se viesse. David pensou, com um estremecimento. Por que estava to nervoso, afinal? Acaso duvidava do amor de Harmony?
	No  ele disse, baixinho.  Eu confio em voc, Harmony Martin... E no que sentimos um pelo outro. Foi em nome disso que nos chocamos com as pessoas que mais amamos no mundo.
O tempo passava com uma lentido angustiante e David consultava o relgio a todo momento.
s dez e quarenta e cinco David percebeu uma estranha movimentao, vinda do corredor que conduzia  sacristia. No instante seguinte ele deparou, surpreso, com os primeiros coralistas que saam do vestirio para ocupar seus lugares,  esquerda do altar. Usavam o uniforme do coral, branco e azul, e traziam consigo a pasta de partituras. Todos, sem xceo, cumprimentaram David de maneira cordial. E isso foi como um sopro de esperana em meio  ansiedade e tenso que o dominava.
	Obrigado  ele agradecia, emocionado, fitando aquelas pessoas que talvez nem soubessem o quanto estavam sendo preciosas, naquela hora difcil.
Paula chegou cerca de cinco minutos depois. Estava linda num vestido channel verde-gua, que moldava-lhe o corpo sensual. Lanou um cumprimento geral ao pessoal do coro e em seguida aproximou-se de David, apertando-lhe a mo com simpatia.
	O noivo parece nervoso  gracejou.
	Onde est Harmony?  ele perguntou, num tom tenso.
	Calma, Romeu.  Paula riu.  Sua adorvel Julieta j chegou.
	Quero v-la.
	Nem pense nisso.  azar na certa.
	Por qu?
	Porque a tradio diz que o noivo no deve falar com a noiva, antes da cerimnia.  Num tom mais srio, Paula confortou-o: . Fique tranquilo, David. Tudo dar certo. Harmony est no carro, muito confortvel, aquecida e... Linda. Eu mesma ajudei-a a escolher o vestido. Mas, naturalmente, no vou lhe contar como .
	E quem ser o seu par, Paula?
	O diretor do conservatrio, sr. Keneth Toomey. Voc o conhece?
	Apenas de vista.
	E uma pessoa adorvel e est l fora, com Harmony.
	Certo.  David hesitou, antes de perguntar:  Ela entrar... sozinha na igreja?
	Sim, j que seu orgulhoso irmo prefere continuar acalentando aquele dio estpido  Paula respondeu, num tom de revolta.
David estranhou o comentrio:
	Voc no deveria falar assim de seu namorado...
	No sei se ainda somos namorados.  Paula suspirou. Com um sorriso triste, concluiu:  s vezes sinto inveja de voc e Harmony, que tiveram coragem de lutar por seu amor. E, por inveja,   entenda admirao.
	Eu entendi  David aquiesceu, num tom srio.  Gostaria de agradecer o apoio que voc deu a Harmony... E a mim.
	Vocs merecem  Paula sentenciou.
	Voc  uma grande pessoa, Paula.
	Ora, pare de me elogiar. Seno acabarei chorando e estragarei a maquiagem.
O som de passos apressados na entrada da igreja fez com que ambos se voltassem. Brandon e Christopher acabavam de chegar, com uma expresso de expectativa nos rostos corados.
	Oi, Paula  disse Brandon.  Ns j vimos Harmony, l fora. Ela est linda.
	Fugimos de casa para ver o casamento  Christopher anunciou.
Paula e David trocaram um olhar emocionado. Ela foi a primeira a falar:
	No vo cumprimentar o noivo, garotos?
Embaraados, os gmeos apertaram a mo de David.
	Ol, cunhado  Brandon ousou dizer.
	Vocs vo levar uma bronca danada quando, chegarem em casa  Paula comentou, com os olhos marejados.  Mas admiro sua coragem. Admiro mesmo. Vocs chegam a ser mais sbios do que os adultos.
	Ns j somos adultos  Christopher afirmou, orgulhoso.
	Bem, vo se acomodando  Paula sugeriu.  Faltam menos de cinco minutos para a cerimnia.
	David!  uma voz feminina soou, na nave central. Era Shawna que chegava, num elegante vestido marrom. Aproximando-se, ela abraou o irmo calorosamente.  Maninho... Eu no perderia este casamento por nada no mundo.
Emocionado demais para dizer qualquer coisa, David manteve a irm contra o peito por um longo momento.
Os coralistas assistiam, num silncio respeitoso,  cena que se desenrolava no altar. Paula havia se afastado em direo  sacristia e, os gmeos, j estavam acomodados no primeiro banco,  direita do altar.
Eram onze e cinco quando o padre Bernard retornou da sacristia. Gladys Silverman e o capito Brodwisky o acompanhavam.
	Onde  que ficamos?  Gladys perguntou.
	Aqui.  O padre Bernard indicou-lhes um lugar prximo de David.
Paula e o sr. Keneth Toomey, que cumprimentou David num tom solene, colocaram-se no lado oposto.
O rgo de tubos soou, enchendo o ambiente com os acordes de uma msica que David reconheceu imediatamente: tratava-se da pea de Bach, que havia sido adaptada por Harmony, para o coral.
Ele tomou flego. A emoo que o dominava era to intensa, que seu corao parecia saltar no peito, como um pssaro assustado em seu primeiro vo.
Agora, David j no se sentia atormentado pela angstia. A presena de Shawna, dos gmeos, dos padrinhos e dos coralistas havia preenchido o vazio, substituindo-o por um clima de festa.
David sorriu. Estava feliz.
A porta principal da igreja se abriu de par em par. E l estava Harmony, em seu vestido de noiva imaculadamente branco. O modelo caa-lhe com perfeio, justo at a cintura e uma ampla saia god, at os ps. Aplicaes de pequeninas prolas o adornavam na altura do busto e seguiam numa linha reta pelas mangas compridas, at o pulso. A grinalda era feita no mesmo estilo, com flores brancas e azuis mescladas a prolas. Dali partia o vu, muito longo, que flutuava ao compasso dos movimentos de Harmony, que segurando um pequeno buque de miostis comeava a caminhar em direo ao altar.
"Valeu a pena, querida", David pensou, tomado por uma onda de felicidade. "Valeu a pena tudo o que sofremos para estar aqui, hoje, selando nossa unio para sempre."
Harmony no havia dado dez passos, quando um movimento na entrada lateral da igreja a fez parar. O som de vozes sobrepunha-se  msica de Bach e Harmony sentiu-se empalidecer. Ser que Rod, ou algum dos Shepard, tencionava provocar um escndalo?
"Oh, no!", ela pensou, apertando com fora o buque contra o peito. E como a confirmar suas suspeitas, viu Glenn Shepard, pai de David, entrar juntamente com a esposa, Brbara Shepard, a filha Jolene, grvida de seis meses, e o genro. Os trs acomodaram-se num banco. Mas Glenn caminhou na direo de Harmony e, num tom inesperadamente gentil, ofereceu-lhe o brao:
	Permita-me acompanh-la at o altar, senhorita? Sei que essa honra caberia a outra pessoa, que infelizmente no est mais entre ns... Assim, ofereo-me para faz-lo.
Harmony estava to perplexa, que quase deixou cair o buque. No podia acreditar no que tinha ouvido e por isso custou a responder. Tomando seu silncio como uma negativa, o velho senhor insistiu:
	Por favor, senhorita.
Um sorriso insinuou-se nos lbios de Harmony, que sem uma palavra aceitou o oferecimento. De braos dados com Glenn Shepard, continuou o trajeto at o altar.
A msica de Bach, que havia se transformado num tmido murmrio, ergueu-se soberana, como se coroando aquele momento singular e feliz.
Conduzida por seu futuro sogro, Harmony seguia pela nave central da igreja. Agora, j no podia ver a chegada de novos e inesperados convidados, que silenciosamente entravam pela porta principal. Um deles caminhou apressado pela nave central e bateu levemente no ombro de Glenn Shepard.
 Desculpe-me, senhor  disse, num tom delicado, mas firme.  Acho que cabe a mim desempenhar este papel...
Glenn Shepard e Harmony yoltaram-se, surpresos. Mas surpresa seria uma palavra insuficiente para descrever a emoo de Harmony ao ver Rod, que parecia to embaraado quanto comovido ao tom-la pelo brao, conduzindo-a gentilmente em direo ao altar.
Devo estar sonhando  ela sussurrou, enquanto Glenn Shepard voltava para perto da esposa.
Rod no respondeu. Apenas fitou-a por um instante, como se quisesse dizer o que nenhuma palavra poderia traduzir.
No altar, noivo, padre e padrinhos acompanhavam, atnitos, a cena que se desenrolava.
A msica de Bach continuava soando, como se acompanhada por um coro de anjos.
Ao chegar ao altar, Rod tomou a mo de Harmony e colocou-a sobre a de David. Era seu modo de no apenas concordar, mas tambm abenoar aquela unio.
Os dois homens trocaram um olhar significativo. Mas no havia nenhum sinal de hostilidade entre ambos... Apenas um desejo de sincera compreenso.
Rod j ia se afastando quando o sr. Keneth Toomey, que desempenhava a funo de padrinho ao lado de Paula, chamou-o:
	Por favor, Rod...
	Sim?
	Acho que seu lugar  aqui.  E afastou-se, enquanto Rod colocava-se ao lado da namorada.
	Vamos dar incio ao casamento  o padre Bernard anunciou, quando a msica de Bach chegou ao final.
Harmony e David ouviam, atentos, as palavras do padre. Compreendiam a importncia daquele momento e, mais do que nunca, estavam confiantes no futuro.
Quando a cerimnia chegou ao fim, David e Harmony voltaram-se para descer do altar. E foi ento que ela viu, ao lado dos gmeos, as duas pessoas que faltavam: Olvia e vov Irena a fitavam com intensidade, como a dizer-lhe que sim, que haviam compreendido, que tambm abenoavam sua unio com David Shepard. Agora tudo estava completo e perfeito, Harmony pensou, antes de dizer:
	Sou a pessoa mais feliz do mundo.
	Mais do que eu?  ele retrucou, com um sorriso, pressionando-lhe levemente a mo.
Harmony ia dizer algo, mas o rgo de tubos soou novamente, acompanhado pelas vozes do coral.
O padre Bernard desceu do altar para abraar cada um dos Martin e dos Shepard presentes, agradecer-lhes por terem comparecido  cerimnia e convid-los a cumprimentar os noivos.
Gladys Silverman e o capito Brodwisky tambm se afastaram do altar. Queriam ser os primeiros a abraar os noivos, desejando-lhes toda a felicidade do mundo.
O grupo aglomerou-se prximo  entrada da igreja, fechando um crculo em torno de David e Harmony. Mais do que o tradicional cumprimento aos noivos, algo importante acontecia ali... A afirmao da paz entre famlias rivais, que haviam se hostilizado por doze anos. E que agora, graas a seus filhos, teriam a chance de ser amigas novamente. Claro que levaria algum tempo... Mas tanto os Martin quanto os Shepard estavam dispostos a tentar. E isso era o que realmente importava.
Apenas Rod e Paula continuavam no altar, olhando-se como h muito tempo no faziam, um tanto isolados do clima ao redor. Os coralistas tambm j haviam abandonado seus lugares e agora estavam no vestirio, trocando o uniforme do coral pelas roupas comuns.
	Acho que andei descuidando de voc, Paula...  disse Rod,
embaraado pela intensa emoo que o dominava.  Alis, cometi tantos erros nos ltimos tempos que nem sei por onde comear a corrigi-los.
	Que tal por aqui?  Paula tirou um envelope do bolso do vestido.
	O que  isso?  Rod indagou, tomando-o nas mos.
	Uma passagem para Toronto.
	No entendi.
	Rasgue-a, por favor.
	O qu?
	Rasgue  Paula repetiu, enlaando-o pelo pescoo e beijando-o levemente nos lbios.
	Eu nunca vou entender voc.
	Oh, vai sim.  Paula sorria, emocionada.  Depois eu lhe conto sobre a histria dessa passagem.
	Voc ia viajar?  Rod perguntou.  Era isso?
	Eu ia cometer um engano irreversvel  Paula sentenciou.  Mas felizmente acordei a tempo. Quando o vi tomando Harmony pelo brao e conduzindo-a ao altar, compreendi que voc  o homem mais maravilhoso deste mundo, Rod, e que minha vida sem voc no teria o menor sentido.
Ele fitou-a por um longo momento, antes de dizer:
	Ns precisamos nos casar, Paula.
	Mas s poderemos fazer isso depois que os gmeos atingirem a maioridade, eu sei...
	Eu pensava assim, at alguns dias atrs. Mas mudei de ideia. 
	Como assim, Rod?
	Bem... Acho que j no precisamos esperar mais. Que tal nos casarmos na primavera?
	Rod!  Paula exclamou, radiante.  Voc est falando srio?
	Claro que sim.
	Eu te amo.  Foi a resposta emocionada de Paula, antes de literalmente arrast-lo at a entrada da igreja.  Vamos, eu preciso contar isso a Harmony.
Mas Paula teria de esperar um bom tempo, at que Harmony e David, centro de todas as atenes, conclussem a tarefa que haviam comeado h vrios dias: a de unir duas famlias rivais, pelo maior e mais poderoso lao do mundo. O lao indissolvel do amor.

FIM
